11 filmes que poderiam ser episódios de Black Mirror

O ano de 2018 mal começou e, para a alegria do público, a Netflix disponibilizou os seis episódios da quarta temporada de Black Mirror, série que tem sido um dos tópicos mais discutidos nas redes sociais durante os últimos dias. Com duração média de 50 minutos, os novos episódios foram assistidos rapidamente pelos fãs mais assíduos, deixando aquela famosa sensação de vazio que se sente após terminar uma série e saber que ela só retorna depois de aproximadamente um ano.

Desde sua estreia em 2011, Black Mirror chamou a atenção por ir na contramão daquilo que grande parte das séries televisivas faziam na época – muito se fala dos benefícios da tecnologia e como seria interessante um futuro onde temos acesso à carros voadores e coexistimos com seres de outras espécies em harmonia; Black Mirror, pelo menos em suas duas primeiras temporadas, retrata o futuro por uma ótica pessimista em que a tecnologia exerce efeitos devastadores.

Mesmo que Black Mirror tenha trazido um conceito interessante à televisão, temáticas semelhantes às abordadas na série são recorrentes no cinema, sobretudo no gênero de ficção científica. Baseado nisso, a lista de hoje traz 12 filmes que poderiam facilmente ser um episódio de Black Mirror. Algumas seleções se dão por sua semelhança com episódios passados e outras simplesmente pela atmosfera semelhante que o filme partilha com a série, mas todos se enquadram nesse estilo de futuro distópico onde a tecnologia é o fio condutor de eventos absurdos prejudiciais à vida de um indivíduo ou mesmo da sociedade como um todo.

11 – Nerve (2016)

Similiar ao episódio Shut up and Dance (Ep. 3, Temp. 3), Nerve se trata de um jogo bastante popular que faz com que seus jogadores sejam recompensados à medida que cumprem tarefas ordenadas por outros participantes. O jogo é dividido entre observadores e jogadores, sendo que os primeiros decidem as tarefas a serem realizadas e os demais as executam (ou não).

Ainda que a história principal se assemelhe à Shut up and Dance (Temp. 3 Ep. 3) por acompanhar um protagonista que deve seguir ordens questionáveis de pessoas desconhecidas, uma outra temática bastante presente são as redes sociais, um advento da era moderna que possui um impacto enorme na sociedade, como Black Mirror já mostrou nos episódios Nosedive (Temp. 3 Ep. 1) e Hated in the Nation (Temp. 3 Ep. 6). No filme, o perigo das redes sociais está no anonimato que elas proporcionam: pessoas com identidades ocultas dizendo o que os outros devem fazer por meio de uma tela de computador, por mais sórdidas que elas sejam.

10 – Preso na Escuridão (1996)

César é um jovem rico e atraente que leva a vida sem maiores preocupações. Ele tem várias amantes e por isso nem sonha em ficar com mulher alguma por muito tempo. Sua percepção de amor é abalada quando conhece Sofía (Penelope Cruz) durante sua festa de aniversário. Instantaneamente, Cézar sente-se atraído por ela, mas na festa também está Nuria, com quem ele dormia casualmente, e que persegue o rapaz, fazendo-o aceitar uma carona que acaba num terrível acidente. Como consequência, o rosto de César fica desconfigurado.

Preso na Escuridão não se assemelha especificamente a um episódio de Black Mirror, o que o coloca nesta lista é o universo em que é ambientado. Trata-se do mundo contemporâneo, mas como a narrativa é guiada de acordo com as percepções do protagonista, as únicas coisas que importam são aparência e status social. Este conceito só dura até o dia em que Cézar sofre um acidente e tem seu rosto desfigurado; a partir daí a aparência pela qual ele tanto prezava torna-se sua maior inimiga.

Obra inspiradora de Vanilla Sky (2001), o filme de Alejandro Amenábar (Os Outros, Mar Adentro) evidencia a hipocrisia de uma sociedade movida por valores supérfluos cujo sentido vazio pode levar pessoas à loucura, depressão e ansiedade.

9 – Corra! (2017)

Além de tecnologia, questões sociais também são tópicos muito debatidos por Black Mirror. A série usa a tecnologia como um meio de explorar não só a sociedade, mas a psique das pessoas. Portanto, psicologia anda lado a lado com o estudo da sociedade em alguns episódios como The Entire Story of You (Temp. 1 Ep. 3) e White Bear (Temp. 2 Ep. 2).

Corra! é um suspense psicológico que levanta uma discussão interessante sobre a psicologia humana e questões sociais, mais precisamente sobre o racismo. A história se desenvolve a partir de um casal formado por um jovem negro e uma jovem branca. Os dois embarcam em uma viajam rumo à casa isolada dos pais da jovem, que no começo se mostram extremamente receptivos, mas logo certos indícios mostram que aquela família é uma ameaça à vida do jovem.

Com momentos de tensão marcantes, Corra! é um retrato sombrio de nossa sociedade. No filme, porém, a tecnologia não é o recurso utilizado para controlar a mente humana, mas sim técnicas de hipnose, que se mostram uma ferramenta poderosa para dominar um indivíduo, privando-o de toda sua individualidade para fazer dele alguém sem capacidade de agir ou pensar por conta própria.

8 – Blade Runner 2049 (2017)

Tanto o Blade Runner de 1982 quanto o de 2017 poderiam entrar na lista. A razão pela qual o escolhido é Blade Runner 2017, de Dennis Villenueve, se deve à proximidade que este estabelece com a sociedade contemporânea.

Se no filme de 1982 os replicantes possuíam um visual mais caricato e os centros urbanos eram grandes megalópoles habitadas por seres de todas as espécies; o filme de 2017 confere um visual mais ‘humanizado’ aos replicantes, que podem ser facilmente confundidos com os humanos. O universo do filme de Villenueve também se aproxima muito mais do mundo contemporâneo: uma imensidão de prédios cinzas se contrapõem ao neon das propagandas enquanto as ruas mal comportam a superpopulação de uma Tóquio futurística.

Os replicantes são seres criados a partir da tecnologia que, contra sua vontade, são preenchidos com falsas memórias e sentimentos. A ideia principal de Blade Runner 2049, que consiste basicamente na artificialidade das memórias, daria um ótimo episódio de Black Mirror.

7 – Globo de Prata (1988)

Pioneiro no subgênero found footage, Globo de Prata do diretor polonês Andrzej Zulawski (Possessão) possui uma história interessante acerca de sua produção. O filme começou a ser produzido em 1975, mas após anos de filmagem, quando tudo estava quase pronto, o Ministério da Cultura polonês sumariamente suspendeu as gravações acreditando que o filme era uma alegoria da situação política no país naquele momento.

Foi ordenado a destruição do material: rolos de filmes, cenários, figurinos, roteiro, tudo! Atores e técnicos conseguiram esconder algum material das filmagens em suas casas, enquanto o diretor fugiu para a França carregando o filme incompleto. Com o fim do regime comunista, em 1988 Zulawski teve a oportunidade de finalizar o filme, porém o material perdido foi substituído pela narração em off do próprio diretor. O resultado é um filme estranho, repleto de sangue, perdas, loucura e constantes indagações filosóficas como fosse alguma coisa de Jean-Luc Godard ou Jodorowski elevada ao cubo.

O filme acompanha a história de um grupo de astronautas que chega a um planeta parecido com a Terra com a missão de povoa-lo e recriar a Terra a partir do zero. Porém, a missão não demora a fracassar quando os novos habitantes cometem as mesmas mazelas que deixaram na Terra: a religião, guerras santas, hierarquias, violência e o hedonismo das drogas alucinógenas. Globo de Prata retrata a humanidade por uma ótica niilista, onde o homem é o responsável por seu próprio sofrimento. Sem heroísmo ou possibilidade de redenção, o filme lembra muitos episódios de Black Mirror que trazem uma reflexão pessimista sobre a condição humana.

6 – Okja (2017)

O diretor sul-coreano Bong Joon-ho (Expresso do Amanhã, Mother – A Busca pela Verdade)  tem sido responsável por títulos recentes que se assemelham muito à episódios de Black Mirror, mas dentre todos eles é Okja aquele que mais lembra o universo da série criada por Charlie Brooker.

O filme conta a história de uma corporação gigante encarregada da criação de uma espécie animal descoberta no Chile apelidada de “Super Porco”. A corporação promove uma competição onde vinte e seis dos animais são enviados aos melhores criadouros ao redor do mundo. Aquele que os alimentar melhor e criar o melhor super porco será recompensado. Uma década depois, a jovem Mija (Seo-Hyun Ahn) convive desde a infância com Okja, o super porco fêmea criado pelo avô. Prestes a perdê-la devido à proximidade do concurso, Mija decide lutar para ficar ao lado dela, custe o que custar.

A distribuição do filme pela Netflix fez com que Okja alcançasse grande repercussão no Brasil, levantando tópicos importantes como o veganismo e proteção aos animais. Diferente da maioria dos filmes da lista, Okja não lembra um episódio de Black Mirror por causa da tecnologia, ainda que ela seja parte fundamental do filme. Sua relação com a série está atrelada à crítica social que faz à indústria alimentícia e à relação destrutiva entre o capitalismo e o meio-ambiente.

5 – THX 1138 (1971)

Filme de estreia de George Lucas (Star Wars), THX 1138 é o filme que apresenta o futuro mais sombrio do qualquer outro nesta lista. Ambientado em um futuro distópico no século XXV, o filme acompanha uma sociedade onde os cidadãos são controlados por meio de uma droga diária fornecida pelo governo, uma forma de controlar as emoções e manter a paz.

Neste contexto, com pessoas privadas de suas emoções e uma televisão holográfica como única forma de divertimento, os dias são sempre repetitivos, resumindo-se ao trabalho e ao falso entretenimento. A situação só muda quando o trabalhador THX 1138 (Robert Duvall) resolve parar de tomar suas drogas e busca uma forma de escapar daquele ciclo.

Uma experiência visual incrível, ainda mais levando em conta a data de produção, THX 1138 é um clássico da ficção científica que aborda as mesmas questões apresentadas no episódio Fifteen Million Mertis (Temp. 1 Ep. 2), um dos melhores entre todos os 18 já lançados em Black Mirror.

4 – eXistenZ (1999)

A filmografia de David Cronenberg (A Mosca, Videodrome) tem tudo a ver com o universo de Black Mirror, mas definitivamente o filme que mais condiz com o propósito da lista é eXistenZ.

Ainda que a temática do filme se assemelhe às abordadas pela série, a história é contada de forma muito mais brutal, característica do diretor canadense, um dos grandes precursores do body horror – um subgênero pouco explorado em que corpos humanos sofrem mutações extremas, muitas vezes fundindo-se com máquinas ou outros aparatos tecnológicos.

A história está centrada na fuga de uma famosa designer de games e seu segurança, que após um incidente no teste de um jogo de realidade virtual chamado “eXistenZ” estão na mira de empresas concorrentes e de um grupo político contrário à virtualização da realidade pelas tecnologias chamado “Reality Underground”.

A premissa de eXistenZ lembra muito o episódio Playtest (Temp. 3 Ep.2) ao usar os videogames de realidade virtual como principal inimigo dos personagens ao mesmo tempo que faz uma crítica às grandes corporações responsáveis pela produção desses jogos.

3 – Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças (2004)

Charlie Brooker, criador de Black Mirror e da igualmente brilhante Dead Set (2008), é um dos escritores mais criativos trabalhando em Hollywood atualmente. Dentre os escritores que se igualam à sua genialidade está Charlie Kaufman, responsável por escrever obras memoráveis como Quero Ser John Malkovich (1999), Sinédoque – Nova York (2008) e Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (2004).

Dirigido por Michael Gondry (A Espuma dos Dias), Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças acompanha a história de Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet). Desiludida com o fracasso do relacionamento, ela aceita se submeter a um tratamento experimental, que retira de sua memória os momentos vividos com ele. Após saber de sua atitude Joel entra em depressão, frustrado por ainda estar apaixonado por alguém que quer esquecê-lo. Decidido a superar a questão, Joel também se submete ao tratamento experimental.

O filme apresenta um conceito brilhante ao questionar o modo como lidamos com a dor da separação através de um ponto de vista pessimista, onde os bons momentos do amor se convertem em uma experiencia traumática pela qual ninguém desejaria passar.  Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças é o tipo de filme que vai te deixar com uma sensação de vazio interno assim como The Entire History of You (Temp. 1 Ep.3) havia feito anteriormente.

2 – Ela (2013)

Quando Ela foi lançado em 2013, os fãs de Black Mirror que acompanhavam a série desde 2011 muito provavelmente tiveram a sensação de estar assistindo a um episódio de 2 horas da antologia idealizada por Charlie Brooker. Isso porque Black Mirror não é uma série apenas sobre o futuro e a tecnologia, e sim sobre a condição humana em um futuro próximo com dispositivos tecnológicos ainda mais sofisticados.

Escrito e dirigido por Spike Jonze (Onde Vivem os Monstros, Quero ser John Malkovich), Ela conta a história de Theodore (Joaquin Phoenix), um escritor solitário que acaba se apaixonando pelo sistema operacional de seu computador (voz de Scarlett Johansson). Mais do que a relação do homem com a tecnologia, Ela é um filme sobre o amor e a natureza das relações humanas em meio à cidade.

É raro ver Black Mirror trazer episódios que traçam uma relação entre o amor e a tecnologia, mas quando o fazem o resultado costuma ser sempre satisfatório, como é o caso de The Entire History of You (Temp. 1 Ep. 3), Be Right Back (Temp. 2 Ep.1) e San Junipero (Temp. 3 Ep. 4). Ela possui uma semelhança indiscutível com estes três episódios e devido ao seu universo extremamente similar ao de Black Mirror merece a segunda colocação da lista.

1 – Ex Machina (2015)

Se Alex Garland ainda não é um nome muito conhecido, logo será. Depois de escrever A Praia (2000), Extermínio (2002), Sunshine – Alerta Solar (2007), Não Me Abandone Jamais (2010) e Dredd (2012), Garland teve sua estreia como diretor em Ex Machina, filme de ficção científica com toques de suspense psicológico que já figura entre os mais significativos dentro do gênero.

Com visuais incríveis e personagens muito bem desenvolvidos, Ex Machina conta a história de Caleb (Domhnall Gleeson), programador de uma grande empresa que recebe o convite para passar uma semana na mansão isolada de seu CEO, Nathan (Oscar Isaac). Após sua chegada, Caleb percebe que foi o escolhido para participar de um teste com a última criação de Nathan: Ava (Alicia Vikander), uma robô com inteligência artificial. Mas essa criatura se apresenta sofisticada e sedutora de uma forma que ninguém poderia prever, complicando a situação ao ponto que Caleb não sabe mais em quem confiar.

Além das ótimas performances, sobretudo de Alicia Vikander, o ponto de destaque é a excelência do roteiro de transformar uma história cujo tema central é inteligência artificial em um labirinto claustrofóbico que desenvolve sua premissa de forma assustadora, talvez devido ao caráter realista de tudo que é apresentado; uma realidade sombria que aparentemente não irá demorar muito para se concretizar.

Toda a atmosfera, desde o visual até o próprio desenrolar da trama, de Ex Machina remetem ao universo de Black Mirror, mas se formos comparar o filme a um episódio específico o mais apropriado seria Be Right Back (Temp. 2 Ep.1), não só pela presença de Domhnall Gleeson em ambos, mas pela forma como exploram o que faz de nós humanos e pela mensagem precisa de que a tecnologia só consegue preencher o vazio em nossos corações até o momento em que percebemos do que tudo se trata: um emaranhado de fios em uma carapaça de metal.

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