Lady Bird sentada em um banco da igreja olhando para o lado com expressão de impaciência.

Crítica: Lady Bird (2017)

Em tempos onde grande parte dos filmes produzidos têm uma influência enorme de corporações cujo principal interesse é o retorno financeiro, o estúdio A24 chega com uma proposta divergente da fórmula atual: liberdade criativa é mandatória; é claro que o estúdio possui um viés mercadológico, mas sua filosofia se concentra em dar liberdade aos realizadores para que criem obras com alto teor autoral que vêm agradando tanto a crítica quanto o público. Fundado em 2013, o estúdio A24 já foi responsável pela produção de filmes como Moonlight (2015), A Ghost Story (2017), Ex Machina (2015), A Bruxa (2015) e o mais recente Lady Bird (2017), filme que marca a estreia de Greta Gerwig (Frances Ha, Mistress America) como diretora.

Após anos trabalhando como atriz e roteirista, Greta Gerwig se tornou um nome importante do cinema alternativo. De acordo com ela, seu grande objetivo no momento era finalizar um roteiro no qual encontrava dificuldade de terminar e ser a diretora dessa história. O roteiro em questão era Lady Bird, uma história bastante pessoal que resgata certas memórias de sua adolescência sobre ter que lidar com as angústias, alegrias, anseios e inseguranças na fase de transição para a vida adulta, dos 17 para 18 anos.

Saoirse Ronan como Lady Bird no filme Lid Bird sentada olhando para o horizonte.

Logo nas primeiras avaliações em sites de cinema, notou-se um fenômeno inesperado envolvendo Lady Bird: o filme se tornou o mais bem avaliado da história do Rotten Tomatoes, com 210 reviews dos críticos e 99% delas positivas. Com o público não foi diferente, no momento desta crítica, o filme encontra-se com a nota 4,1 no site e aprovação de 83% da audiência. A ótima recepção é um feito notável na estreia de Greta Gerwig e tem gerado uma discussão acalorada acerca do lançamento do filme, o que é totalmente compreensível, visto que a história de Lady Bird aborda temas universais como a transição para a vida adulta, o convívio entre pais e filhos e a relação de amor e ódio que desenvolvemos com a cidade em que crescemos.

Christine “Lady Bird” McPherson (Saoirse Ronan) é uma jovem de 17 anos no terceiro ano do colegial que vive na cidade de Sacramento, California. Estudante de um colégio católico, ela encontra dificuldades nas relações familiares, sobretudo com sua mãe, que desconfia da capacidade da filha de ter uma vida estável após o termino do colégio. A relação conturbada com a mãe é fonte das angústias e incertezas de Lady Bird, sentimentos que, junto à personalidade sonhadora e idealista da jovem, moldam seu jeito único de pensar e agir. Ela não quer ficar em Sacramento, seu maior desejo é ir para Nova York, “onde a cultura está”, de acordo com suas palavras.

Apesar de ser ambientado na mesma cidade e durante a mesma época em que Gerwig foi adolescente (o início dos anos 2000), Lady Bird não é um filme biográfico. A história é levemente baseada em experiências pessoais da diretora, mas trazer às telas um período de sua vida não é o foco em questão. Trata-se de uma declaração de amor à sua cidade natal, sobre esse sentimento nostálgico que nutrimos pelo lugar ode crescemos – no momento em que estamos lá, tudo é insatisfatório; quando nos mudamos para longe, olhamos com carinho para o passado e cada pequeno detalhe da cidade que antes passava em branco, hoje carrega um alto teor emocional.

Lady Bird e sua mãe dentro do carro conversando.

Por mais que dissesse não estar contente ali, Lady Bird indiscutivelmente nutria um carinho especial por Sacramento, ela apenas não havia descoberto. E os sinais estavam ali o tempo todo. Quando escreve uma carta de candidatura para a faculdade, a orientadora do colégio de Lady Bird faz uma observação importante sobre a relação da garota com Sacramento: amar envolve olhar com cuidado, prestar atenção. Em sua carta de inscrição, a garota descreveu a cidade precisamente. Apesar de suas constantes reclamações, ela nutria uma relação ambígua com aquele local, ora de ódio, ora de amor; este último, no entanto, só seria percebido quando ela viesse a amadurecer.

Acima de tudo, a ótima recepção de Lady Bird se deve ao fato de o filme tratar de questões humanas com uma sensibilidade incrível. É muito difícil que o espectador não se identifique em algum aspecto com a história de Lady Bird. Todos os sentimentos experimentados na adolescência estão ali, desde a descoberta do amor ao primeiro porre de bebida alcoólica. Vale destacar o modo genuíno como o filme retrata a relação entre pais e filhos. Enquanto Lady Bird se dá muito bem com seu pai (Tracy Letts), não se pode dizer o mesmo de sua relação com a mãe (Laurie Metcalf), com quem vive em constante atrito, brigando por assuntos pequenos que poderiam ser evitados na maioria das vezes.

Os embates entre mãe e filha se dão pelo fato de ambas possuírem personalidades fortes. A postura severa e ‘pé no chão’ da mãe vai de encontro ao jeito contestador de Lady Bird olhar o mundo ao seu redor. Se para uma o ideal de sucesso se resume à estabilidade financeira, para outra se trata muito mais de explorar o que a vida tem a oferecer – convicções que são moldadas com o tempo e experiência de vida; nossas ideias e percepção de mundo não devem ser estáticas, elas devem evoluir constantemente à medida que o tempo passa. Por mais complicada que seja essa relação, o amor que uma nutre pela outra é nítido, assim como o amor que Lady Bird sente por sacramento, é um amor que pode ser observado por quem está de fora, mas que ainda é uma incógnita para os envolvidos.

Lady Bird com um vestido chique enquanto coloca uma de suas mãos no ombro de sua mãe, que está com seu uniforme do trabalho de enfermeira.

A partir de uma premissa simples, o roteiro escrito por Greta Gerwig encanta pelas interações humanas realistas, usando os diálogos como principal recurso para conduzir sua narrativa. Inclusive a forma como os diálogos são escritos já evidenciam a capacidade de Gerwig em retratar com naturalidade as interações entre os personagens. Logo na primeira cena, quando Lady Bird está no carro com sua mãe observamos uma conversa que sintetiza precisamente o atrito de personalidade entre mãe e filha. O que se inicia como uma conversa rotineira sobre música torna-se uma situação caótica em questão de segundos, onde uma tenta impor sua fala sobre a outra em um tom de voz que cresce gradativamente até culminar em um ato explosivo da jovem, que pula do carro em movimento enquanto sua mãe fala sobre a faculdade.

A atuação de Saoirse Ronan é um dos tantos acertos do filme. Dar vida a uma personagem tão complexa quanto Lady Bird não era uma tarefa fácil, mas que foi cumprida com maestria pela atriz de 23 anos indicada duas vezes ao Oscar. Ela é capaz de incorporar os diversos sentimentos vividos por uma jovem de 17 anos, que oscilam o tempo todo à medida que lhe são proporcionadas novas experiências. Igualmente brilhante, Laurie Metcalf conquista o público com sua personalidade marcante, que por mais severa que seja, demonstra certa fragilidade, como alguém que já teve seus dias de sonhadora, mas teve que se fechar devido às circunstâncias do presente ou traumas do passado.

Divertido e com uma porção de cenas memoráveis, Lady Bird encerra 2017 como um dos melhores filmes do ano. Personagens complexos, diálogos realistas e relações familiares tratadas com extrema sensibilidade conduzem o filme junto a uma trilha sonora repleta de hits dos anos 2000 como “Cry Me a River”, de Justin Timberlake. Lady Bird é um ode à juventude e ao turbilhão de emoções acarretados por essa fase, abordando temas delicados com um equilíbrio perfeito entre drama e humor. O filme faz jus à enxurrada de críticas positivas e mostra o talento de Greta Gerwig como diretora e roteirista, capaz de tornar uma história simples em uma experiência cinematográfica emocionante.

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