6 motivos pelos quais A Ghost Story é um dos filmes mais marcantes dos últimos anos

Escrito e dirigido por David Lowery, A Ghost Story é uma produção independente que chamou a atenção do público e da crítica ao contar uma história sobre o peso do tempo através da ótica de um fantasma. Sua presença, no entanto, passa longe de ser aterrorizante; a narrativa opta por evidenciar o sofrimento acarretado pela vida eterna, seguindo a linha de clássicos como Nosferatu (1922) e Fome de Viver (1983).

Antes de alcançar a grande popularidade que possui atualmente, o filme havia sido classificado por Steve Rose, crítico do jornal inglês “The Guardian”, como o principal expoente de um movimento que ele mesmo deu o nome de Pós-horror. Ainda que essa classificação seja equivocada, é inegável que A Ghost Story recicla paradigmas que foram adotados exaustivamente nos últimos anos dentro do gênero.

A trama gira em torno do casal formado por C. e M. (Casey Aflleck e Rooney Mara), cuja estabilidade é abalada quando C. morre em um acidente. Após o ocorrido, ele volta à vida na forma de um fantasma e vai até sua casa na esperança de consolar sua esposa. Porém o tempo logo se revela como seu pior inimigo. Sua esposa, que inicialmente encontrava-se extremamente abalada, passa a superar a morte do marido e seguir a vida, de modo que ele continue ali na casa como um fantasma, observando tudo acontecer sem poder fazer nada, apenas lamentar.

O tom autoral e a forma sensível como aborda questões existenciais renderam o merecido destaque que o filme ganhou nos últimos meses. Em uma análise mais aprofundada existem outros motivos plausíveis que talvez expliquem o que faz de A Ghost Story um filme tão marcante capaz de conquistar tamanha atenção por meio de uma produção tão singela.

6 – A figura do fantasma se enquadra em um perfil melancólico e não aterrorizante

Na crença popular, fantasma é o espírito de uma pessoa ou animal falecido que pode aparecer para os vivos de maneira visível ou através de outras manifestações. Culturas pré-históricas de diferentes partes do mundo acreditam em fantasmas antes mesmo de sua figura se tornar um ícone da literatura e do cinema de horror.

Comumente, os fantasmas são descritos como essências solitárias que assombram um local, objeto ou pessoa em particular a qual estiveram ligados em vida. O lado aterrorizante do fantasma foi aproveitado por muitos filmes de terror ao longo da história do cinema, fazendo com que a ideia de ‘assombração’ chocasse o público ao evocar o medo do desconhecido, daquilo que está além de nossa compreensão.

Em A Ghost Story, o fantasma interpretado por Casey Affleck possui uma conexão profunda com a natureza das emoções humanas – ele já foi humano um dia, e não foi a morte que o fez abdicar de suas emoções. Seu objetivo no pós vida não se trata de amedrontar os vivos; está mais relacionado a reestabelecer uma conexão perdida com tudo e todos de quem fora afastado pela morte. Essa busca incansável por algo que talvez nunca se concretize confere um ar melancólico ao fantasma, que vaga inconsolável pelo tempo na esperança de eventualmente encontrar a libertação do mundo material.

5 – A trilha sonora se alinha sutilmente às emoções dos personagens

A quarta parceria entre o cineasta David Lowery e o compositor Daniel Hart rende uma trilha sonora simplesmente espetacular em A Ghost Story, capaz de comunicar a atmosfera melancólica do filme e toda a estranheza presente nos ambientes em que seus personagens transitam.

O fato de o protagonista ser um músico é fundamental para a narrativa do filme, pois a música que C. estava compondo antes de sua morte é um recurso utilizado para conectá-lo a um determinado espaço e tempo – a casa e os bons momentos que vivia com sua esposa – ao mesmo tempo em que refletia parte de sua personalidade e o quanto estimava a relação que construiu com a pessoa que amava em um lugar especial.

A música “I Get Overhelmed”, composta por Daniel Hart, trabalha junto com a cinematografia precisa de Lowery para construir cenas memoráveis que sintetizam as emoções dos personagens sem que eles precisem dizer uma palavra. É a perfeita combinação entre som e imagem.

É claro que as atuações de Rooney Mara e Casey Affleck são indispensáveis para o bom resultado alcançado. A cena em que M. ouve a música composta por seu falecido marido enquanto lembra do passado é um dos pontos altos do filme. A letra que diz “Sua amante está aí? Ela está acordando? Ela morreu durante a noite e deixou você sozinho?” combinada com a expressão de tristeza e angústia no rosto de M. evidencia o entrosamento entre os atores, Lowery e Hart.

4 – A emblemática cena da torta

A “cena da torta”, como ficou conhecida, é uma das cenas mais discutidas de A Ghost Story. Após a morte de seu marido, M. começa os preparativos para a venda da casa. Quando tudo fica pronto, o corretor de imóveis vai até a casa para entregar os documentos da venda e leva uma torta junto. Mais tarde, ela vê a torta em cima da bancada de sua cozinha e decide comê-la enquanto está sentada no chão.

À primeira vista, a cena da torta pode parecer parada e insignificante. Mas quando analisada com profundidade, podemos perceber o quanto ela é significante para o filme. O ângulo de câmera e a composição da cena são planejados para revelar os sentimentos de M. em um ato que se inicia como algo rotineiro e termina como um atestado de dor e sofrimento. A câmera estática mostra M. sentada no chão comendo uma torta enquanto o fantasma de seu marido a observa. Ela come a torta por mais de cinco minutos seguidos, sem nenhum corte ou diálogo.

O que faz a cena da torta tão emblemática é a forma como ela se desenvolve e o quanto ela diz utilizando apenas recursos visuais. O modo como M. devora a torta evidencia seu estado fragilizado: ela esfaqueia a torta e gradativamente assume uma expressão de angústia que não havia sido revelada até o momento. Enquanto isso, o fantasma é observado ao fundo em uma posição de impotência; não há nada que ela possa fazer, a não ser lamentar junto com ela enquanto observa seu sofrimento.

A dolorosa sequência, exposta de forma crua e voyeurística, funciona como uma declaração de ideais e princípios. Após sofrermos junto com M. durante os cinco minutos interruptos que ela come a torta, podemos ver que sua atitude está relacionada a um ato de martirização, uma espécie de culpa daquele que permanece vivo.

3 – As imagens falam por si só

Após se tornar um fantasma, o protagonista de A Ghost Story passa a ser alguém incapaz de se comunicar verbalmente. Desse modo, o desenvolvimento da história se baseia muito mais nas imagens do que nos diálogos. Definitivamente as interações ainda são importantes, mas elas são lentas e silenciosas; as expressões, os ângulos de câmera e ambientações nos fornecem as informações necessárias para que tenhamos a abstração necessário daquilo que o filme pretende revelar.

A iluminação é um recurso que Lowery aproveita muito bem na construção de A Ghost Story. Passamos por muitos ambientes enquanto acompanhamos o fantasma vagar pelo tempo e cada um deles possui visuais únicos que refletem aspectos específicos do espaço, sempre alinhados às emoções dos personagens: a casa escura e vazia reflete o sofrimento do casal; a cidade futurística com luzes de neon contrapostas à paleta monocromática do figurino do fantasma simboliza sua desconexão com aquele mundo; o campo aberto e o céu estrelado do terreno onde a casa de C. e M. seria construída no futuro evidenciam as possibilidades inexploradas; os escombros de uma casa habitada por um fantasma são uma metáfora para o fim de sua esperança; etc.

A repetição da câmera estática em planos fechados é uma escolha inteligente de David Lowery. Por meio dessa técnica, o diretor ressalta o tom contemplativo do filme. A câmera pode ser observada com frequência em cantos escuros de algum ambiente ou escondida atrás de uma porta, da mesma forma que o fantasma interpretado por Casey Affleck costuma observar o mundo ao seu redor.

Outro recurso visual importante utilizado por Lowery é a proporção de tela 1.33:1, que simula um quadrado com as extremidades suavizadas. A escolha da proporção, nas palavras do diretor, se deve ao fato de “A Ghost Story ser basicamente sobre alguém preso na caixa da eternidade”.

2 – O tempo exerce um efeito devastador

Acima de tudo, A Ghost Story é um filme sobre o efeito devastador do tempo. Não há um antagonista personificado, a única coisa que separa o protagonista de seu objetivo é o tempo.

Após retornar à vida, o fantasma vai em busca de sua esposa na esperança de lhe oferecer algum tipo de conforto. A impossibilidade de qualquer interação intensifica seu sentimento de tristeza, que assiste dia após dia sua esposa superar o luto e levar a vida adiante. Quando ela finalmente deixa a casa, o fantasma se torna uma espécie de observador do futuro, presente e passado da casa em que morava e, assim, da vida de todos que viriam a habitá-la.

Em sua jornada, o fantasma testemunha uma mãe tendo que cuidar dos dois filhos pequenos; uma festa caseira onde um homem inicia o monólogo que resume toda a ideia do filme por meio de algumas frases filosóficas; a demolição e transformação da casa em um arranha-céu onde toda a cidade remete a um futuro distópico ao estilo Blade Runner; e por fim, após um looping temporal, o terreno vazio em que eventualmente sua casa seria construída. Todos esses estágios da casa são marcados por longas passagens de tempo pontuadas por fade outs duradouros que deixam a tela completamente escura por alguns segundos, que no filme podem significar anos ou até mesmo décadas.

Para o fantasma, a pior parte de estar preso por tanto tempo no mundo material é a sensação de ser deixado para trás – o mundo como ele conhecia já não existe mais, assim como as pessoas com quem se relacionou durante a vida. Impossíveis de serem apagadas, as memórias deixam de ser reconfortantes para torturá-lo devido a sua limitação que o priva da capacidade de interagir com o mundo ao seu redor, tornando-o alguém substituível, que é parte do passado e se vê cada vez mais insignificante, dia após dia.

1 – A Ghost Story não precisa de um grande orçamento para dar vida a uma boa história

A Ghost Story é fruto do trabalho de um diretor talentoso que desejava contar uma história sem a interferência de um grande estúdio, uma definição bastante coerente para aquilo que um filme independente deve ser. O orçamento do filme foi de apenas 100 mil dólares e o rendimento nas bilheterias foi de 1,9 milhões de dólares. Mais importante do que o lucro, é a concretização do projeto que mostra o poder da união entre uma boa história, atores empenhados e equipe de produção comprometida.

A ideia de A Ghost Story está enraizada em experiências pessoais do diretor David Lowery, o que confere o tom autoral do filme. De acordo com ele, a ideia por trás do filme veio após uma briga que teve com sua mulher quando eles discutiram se ficariam em Los Angeles ou se voltariam para o Texas. “Depois daquela briga, busquei entender na minha alma por que me sentia tão ligado a coisas físicas. No final das contas, eu queria estar em um lugar em que me sentisse confortável […] Percebi que era nostalgia e sentimentalismo, e que todas as coisas que me impediam de seguir em frente podiam ser rastreadas até não querer sair da casa dos meus pais — ou não querer sair da casa para onde a gente se mudou quando eu tinha sete anos. Então eu quis fazer um filme sobre não querer ir embora”.

Formando um time de colaboradores do passado (incluindo Affleck e Mara que trabalharam com o diretor em Ain’t Them Bodies Saints), Lowery financiou A Ghost Story de seu próprio bolso e manteve o projeto em segredo por um longo tempo, revelando-o apenas alguns dias antes de seu lançamento.

A visão triste de Lowery acerca dos temas discutidos em A Ghost Story faz do filme um ensaio pessoal sobre o sentimento de deslocamento, o efeito devastador do tempo e a conexão espiritual que temos com aqueles que amamos.

Compartilhe o post!

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: