Soco no Estômago: 12 filmes que deixam uma sensação de incômodo permanente após os créditos finais

 

Há alguns meses atrás quando assisti ao filme mãe! (2017), saí do cinema com uma sensação difícil de descrever: ao mesmo tempo em que tentava absorver o teor metafórico da história, me sentia profundamente agoniado e inquieto com os eventos apresentados ao final da projeção.

Acredito que o termo que melhor descreva o que senti naquele dia seja incômodo; ainda que intrigado, estava incomodado com aquilo que acabara de assistir. E não me refiro a isso como algo negativo. O cinema, assim como qualquer outra manifestação artística, não tem a função de agradar. Imagina como seria chato se tudo que assistíssemos na televisão ou no cinema fosse um retrato da realidade onde as imperfeições do mundo fossem omitidas para agradar ao público?

Desde então tenho refletido sobre filmes que me causaram essa mesma sensação. Quando digo que os filmes a seguir são ‘perturbadores e realistas’ me refiro a histórias que não recorrem a eventos sobrenaturais ou criaturas de outra dimensão para incomodar o espectador; são filmes ambientados em um mundo realista onde a humanidade é a fonte de todo o mal.

12 – Para Sempre Lilya (2003)

Para Sempre Lilya é um filme agoniante de assistir, pois mostra a realidade nua e crua do mundo. Não há heroísmo e a possibilidade de um final feliz está sempre tão distante que não vale nem a pena cogitá-la. A história relata a vida de Lilja (Oksana Akinshina), uma jovem de 16 anos que é abandonada pela família após emigrar da União Soviética para os Estados Unidos.

Desesperada e sem dinheiro, a garota é forçada a entrar no mundo da prostituição, o que dá início a uma espiral de complicações em sua vida, que se torna cada vez pior a partir daí. O filme é uma denúncia ao tráfico humano e mostra a realidade trágica vivida por pessoas que foram confinadas a uma existência amarga e desumana sem qualquer perspectiva de melhora ou de uma vida digna no futuro.

11 – Miss Violence (2013)

Durante seu aniversário de 11 anos, uma garota se joga da janela com um sorriso no rosto. Rapidamente conformada com o suicídio, a família da garota dá continuidade à sua rotina perfeitamente organizada. Conforme o filme progride, passamos a entender melhor as motivações da família e a causa obscura por trás do trágico incidente.

Durante grande parte da história, a impressão que se tem é que estamos acompanhando a história de uma família incomum tentando lidar com a morte da filha, mas à medida que nos aprofundados em sua rotina, percebemos que  aquilo que está sendo mostrado na tela é só a superfície de algo repugnante, orquestrado por alguém com intenções horrendas. Sem uma conclusão definitiva, a cena final abre margem para diversas interpretações quanto ao futuro da família, conferindo um caráter ainda mais perturbador ao filme.

10 – A Garota da Fábrica de Caixas de Fósforo (1990)

Uma moça que trabalha em uma fábrica de fósforos leva uma vida frustrante em uma casa com a mãe e o padrasto que ou a ignoram ou abusam emocional e fisicamente dela. Ela acredita que sua vida está prestes a mudar quando encontra um homem bem-sucedido e se apaixona por ele, mas o relacionamento dos dois não será nem perto do que ela esperava.

Quase sem diálogos, a história se passa em um mundo contemporâneo pós-industrial sombrio e gelado, onde as máquinas trabalham incessantemente e nos mostram um processo industrial sempre idêntico, contínuo e perfeito em sua natureza mecânica, mas também revelam a angustia da eterna repetição das ações infinitas vezes. A Garota da Fábrica é um drama impiedoso, sem concessões; um filme que explora os limites humanos diante de sucessivas decepções.

9 – Amores Brutos (2000)

Amores Brutos é o primeiro filme da Trilogia da Morte realizada por Alejandro González Iñárritu (Birdman, O Regresso), precedendo os igualmente fantásticos 21 gramas (2003) e Babel (2006). Os três filmes da trilogia são interligados por compartilharem do mesmo recurso narrativo: histórias interligadas por destinos de pessoas desconhecidas, focado em alguns núcleos, carregando cada faceta com sentimentos, emoções extremas e tragédias de portes diferentes.

O primeiro filme da trilogia tem como evento catalisador um acidente de trânsito, seguido pela investigação da intimidade de pessoas envolvidas no incidente. Todos os três núcleos têm histórias interessantes para contar, desenvolvidas de forma bastante coerente ao longo da projeção. Nelas, todos os personagens vivenciam experiências de dor e perda como oportunidades de transformação, adaptando-se às circunstâncias cruéis a que são submetidos.

8 – A Outra História Americana (1998)

Com cenas brutais e diálogos reflexivos, A Outra História Americana é um retrato tão preciso do racismo que chega a assustar dada tamanha semelhança com os fatos noticiados diariamente na televisão. A história gira em torno de Derek (Edward Norton), um neonazista líder de uma gangue local, e seu irmão Danny (Edward Furlong), que vê Derek como sua única referência familiar e acaba por seguir seus passos.

Dois protagonistas psicologicamente instáveis são a fórmula para evidenciar um submundo de crueldade e intolerância: pessoas que desprezam minorias e têm um sentimento de superioridade indefensável, utilizando-se de métodos violentos para afirmar suas convicções distorcidas. A cena final encerra o filme com chave de ouro, conferindo um desfecho convincente à história e nos deixando desconfortáveis com a brutalidade dos acontecimentos, ainda que estes sejam responsáveis por propor uma reflexão importantíssima sobre tolerância e compaixão.

7 – Gritos e Sussurros (1972)

Em uma casa no campo uma mulher está bastante enferma e recebe cuidados de suas duas irmãs e de uma empregada da família, que precocemente perdeu sua filha e por isso extravasa seu amor de mãe dando o maior carinho possível para aquela moça tão debilitada. Dentro deste contexto lembranças, frustrações e imaginações em um misto de amor e ódio surgem no interior de cada pessoa.

Para o diretor do filme, Ingmar Bergman (O Sétimo Selo, Persona), Gritos e Sussuros é o filme em que “o morto não pode morrer, então é obrigado a perturbar os vivos”. A partir dessa premissa, o cineasta desenvolve um drama intimista que disseca de forma visceral a alma feminina, sempre sustentado pelos tons de vermelho e preto, que ajudam a criar a atmosfera fantasmagórica do filme.

 

 

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