Niilismo e misantropia em 12 filmes




 

Rick and Morty e Bojack Horseman são dois seriados de televisão que estrearam recentemente e têm reavivado a discussão sobre um tema presente há muito tempo na sétima arte: o niilismo. Rick e Bojack são personagens essencialmente niilisitas e sua visão de mundo tem feito com que muitas pessoas se identifiquem com os seriados por enxergarem um reflexo de si mesmas nestes dois personagens.

Tendo surgido na Rússia durante o século XIX, o niilismo foi fundamentando posteriormente por filósofos como Feuerbach, Darwin, Henry Buckle, Herbert Spencer e Friedrich Nietzsche, sendo frequentemente associado pelo senso comum às teorias deste último. O niilismo retira do âmbito do Estado, da Religião e da Família todo poder, a capacidade de reger os passos do Homem. Seus seguidores desacreditam de toda e qualquer possibilidade de sentido ou significação da existência humana, vivendo em um vazio que nega as convenções mundanas.

Apesar de niilismo e misantropia serem filosofias distintas, elas são comumente retratadas por uma ótima similar no cinema. Enquanto o niilismo prega a negação de crenças e valores tradicionais e não vê sentido ou utilidade na existência, a misantropia remete ao ódio ou aversão pelo ser humano. Partindo desse pressuposto, a maioria dos filmes da lista podem ser somente niilistas e não misantropos ou vice-versa. Alguns filmes, no entanto, podem abordar os dois conceitos, seja através de personagens que os personificam ou de um arco narrativo que consegue colocar ambos na mesma esfera.

12 – Match Point (2005)

A maioria dos filmes de Woody Allen (Annie Hall, Meia-Noite em Paris) possui histórias ou personagens niilistas, mas esta temática atinge seu ápice em Match Point. A trama gira em torno de Chris (Jonathan Rhys-Meyers), um jogador de tênis aposentado que tem sua estabilidade familiar, financeira e emocional ameaçada quando conhece a encantadora namorada do irmão de sua esposa.

O que inicialmente aparenta ser um romance sem grandes reviravoltas logo se torna um drama intenso sobre moralidade e justiça. Match Point evidencia a crueldade humana em sua mais pura forma – não há redenção e a justiça se mostra falha. Aquele que comete atos cruéis consegue se sobressair, deixando o espectador com uma sensação incômoda devido à subversão de valores proposta pela história: o amor fracassa, o vilão sai impune e parece não haver um único sinal de remorso diante da brutalidade dos eventos ocorridos.

11 – Ex Drummer (2007)

A adaptação roteirizada e dirigida por Koen Mortier do romance homônimo de Herman Brusselmans conta a história de Dries, um famoso escritor que vive de forma privilegiada em sua casa de alto padrão e é convidado por três deficientes para ocupar a vaga de baterista na banda deles. A ideia veio de uma entrevista que os membros da banda leram onde Dries afirmava saber tocar bateria.

Cada um dos três deficientes possuem peculiaridades assombrosas e um passado obscuro marcado por eventos traumáticos, que dão base para que o espectador entenda a frieza de seus atos no presente. Este não é um filme fácil de ser assistido. As cenas de violência e diálogos ofensivos podem ser um problema para o público mais sensível. A brutalidade do filme, no entanto, é uma forma de retratar precisamente o pensamento de indivíduos que estão se lixando para convenções sociais e vivem suas vidas do jeito que mais lhes convém, por mais degradante e violento que isso seja.

10 – O Sétimo Continente (1989)

A trama narra os últimos anos de uma família austríaca que decide escapar para a Austrália depois que a filha do casal, mergulhada em total desespero e tédio, inventa que está cega. Todos da família percebem então que sofrem desses mesmos sentimentos, e vão para outro continente onde decidem mudar de vida, e planejam algo bem sinistro.

A depressão coletiva é levada ao máximo, e a atitude niilista da família se mostra quando eles decidem se desapegar completamente dos bens materiais e também da vida. Os eventos ocorridos no filme mostram como nascemos, percorremos trajetos propostos a despeito de idealizações próprias e, ao fim, nos vemos incapazes de encontrar qualquer felicidade utópica, de modo que a morte talvez seja a melhor forma de suprir essa busca vazia por autenticidade humana.

9 – Medo e Delírio (1997)

“Aquele que se transforma em uma besta, se livra da dor de ser humano”. A frase inicial de Medo e Delírio sintetiza precisamente aquilo que estamos prestes a assistir: a decadência do Sonho Americano retratada sob a ótica de uma geração que viveu um forte sentimento de esperança e efervescência cultural em meios aos conflitos dos anos 1960, mas que parece ter perdido seu propósito anos mais tarde ao se dar conta de um evidente deslocamento social.

O filme dirigido por Terry Gilliam (Os 12 Macacos, Monty Python – O Sentido da Vida) é uma adaptação do livro de mesmo nome escrito por Hunter S. Thompson, um dos escritores mais influentes do século XX, responsável por inventar o Gonzo Journalism. A história narra a viagem de um repórter e seu jornalista (Johnny Depp e Benicio Del Toro, respectivamente) à Las Vegas para cobrir um dos maiores eventos de moto do mundo. A viagem é regada por diversos tipos de drogas, consumidas com frequência pelos dois protagonistas.

Mais que um filme psicodélico ambientado em uma cidade propícia para o consumo de alucinógenos, Medo e Delírio é uma reflexão sobre a decadência de uma geração e seus ideais; um sonho repleto de esperança que resultou em pessoas cuja existência vazia só pode ser apaziguada pelo consumo incessante de drogas.

8 – Beleza Americana (1999)

Pessoas que se encontram na casa dos quarenta ou cinquenta anos começam a se preocupar com o tempo que lhes resta. O medo de chegar aos últimos anos de vida está intrinsicamente ligado à fragilidade emocional e um vazio existencial difícil de ser preenchido. Esse é o caso de Lester (Kevin Spacey), um homem de meia idade que perdeu o gosto pela vida e nada mais justifica sua existência.

Seu estado de indiferença em relação a tudo que o cerca é repensado quando conhece Angela (Mena Suvari), amiga de sua filha que desperta em Lester uma atração inexplicável. A jovem faz com que ele repense a forma como estava levando a vida e, dessa forma, comece a se desprender de tudo que lhe angustiava: o emprego, o casamento e a necessidade de agradar as pessoas em geral. A partir desse momento, Lester percebe que sua busca dificilmente lhe traria alguma satisfação, o que desperta nele a consciência de a juventude que tanto invejava havia ficado no passado e jamais poderia ser recuperada.

7 – Dançando no Escuro (2000)

A visão pessimista e falta de fé na humanidade é evidente na filmografia de Lars Von Trier. Em Dançando no Escuro, o niilismo e a misantropia não têm personificação. Eles permeiam o filme de diversas maneiras e criam no espectador o sentimento de que nada importa e a humanidade é um monstro.

A trama acompanha Selma (Björk), uma mãe solteira que tem uma doença hereditária que faz com que ela perca a visão gradativamente. Sabendo que o mesmo deve acontecer com seu filho, ela começa a juntar dinheiro para que ele possa a fazer uma operação capaz de reverter o problema. Trabalhando incansavelmente em uma fábrica para alcançar seu objetivo, Selma sofre com a injustiça cometida por pessoas em que confiava e com a indiferença das autoridades.

Dançando no Escuro destrói o conceito de que “tudo vai ficar bem no final”. O sacrifício da protagonista não leva ao caminho esperado pelo público, pelo contrário, rende uma das cenas mais chocantes da história do cinema sem precisar de artifícios apelativos. Assim como o niilismo propõe, o filme mostra que não existe bem e mal, apenas uma zona cinza onde o sentido da vida e das coisas que fazemos não é muito claro.




Compartilhe o post!

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: