12 filmes não-românticos sobre o amor

No mundo da arte, especialmente do cinema, existe um embate entre o amor real e o amor idealizado. Enquanto o primeiro significa o amor como ele é, o outro diz respeito a um amor criado por nós, moldado de acordo com nossas vontades e desejos, cuja probabilidade de acontecer é praticamente inexistente.

Muitos filmes de romance usam o amor idealizado para trazer à tela histórias emocionantes sobre casais apaixonados e todas dificuldades que eles irão superar para conseguirem ficar juntos eventualmente.  Mas hoje quero falar sobre o contrário disso: histórias sobre um amor não idealizado, sem aquela atmosfera otimista característica do gênero de romance; filmes que discutem sobre o amor que o retratam por um viés maduro e realista.

12 – O Lagosta (2015)

Primeiro filme em língua inglesa do cineasta grego Yorgos Lanthimos, responsável pelo ótimo Dente CaninoO Lagosta é um filme estranho como aquele, mas ambientado em um universo distópico onde pessoas solteiras são obrigadas a se hospedar em um imenso resort e, a partir daí, têm 45 dias para encontrar um novo parceiro. Caso não consigam, serão transformadas em um animal de sua escolha.

A trama segue o personagem de David (Colin Farrel), um homem que foi separado de sua esposa e deve encontrar uma nova parceira durante sua estadia no resort. Lá, conhece diversas figuras excêntricas que podem ajudá-lo em sua tarefa, mas é inevitável não sentir a tristeza e melancolia conforme os dias passam e seu prazo vai chegando próximo do fim. Em uma sociedade onde o livre-arbítrio do amor é proibido, O Lagosta nos apresenta uma visão pessimista em relação ao tema, que culmina em uma sequência que eleva a expressão “o amor é cego” a um outro nível.

11 – Os Amantes do Círculo Polar (1998)

Otto (Fele Martínez) e Ana (Najwa Nimri) são meio-irmãos, o pai dele é casado com a mãe dela. Depois de passarem a infância juntos, acabam seguindo caminhos diferentes e passam muitos anos sem se ver. Certo dia, eles se reencontram, retomando um amor há muito adormecido.

Em Os Amantes do Círculo Polar, o espanhol Julio Medem nos traz uma história sobre o amor cíclico: amantes estão predestinados por uma força maior inexplicável a se encontrarem eventualmente, basta que os sinais dados pela vida sejam captados. Trata-se do amor como uma comunicação circular que nunca termina, prevalecendo inclusive à morte. O círculo polar do título é o lugar onde os dois amantes devem finalmente se encontrar, funcionando como uma metáfora para todo o propósito do final, pois é um lugar exótico e mítico onde o sol nunca se põe, mas avança sempre em linha horizontal.

10 Love (2015)

“Meus filmes serão feitos de sangue, esperma e lágrimas. É como a essência da vida.” A frase do protagonista de Love sintetiza o propósito de Gaspar Noé (Irreversível, Enter The Void) em seu filme mais recente. Para ele, o filme deve ser um reflexo da vida, portanto, as relações são tratadas de forma extremamente intimista e o sexo exerce um papel fundamental na história.

Muito além do sexo explícito, Love é um drama obscuro sobre o amor e os desejos da juventude. Narrado através de flashbacks, o filme se intercala entre o presente e o passado de Murphy (Karl Glusman), personagem que o diretor usa como uma espécie de projeção de sua própria personalidade. Levando uma vida frustrada com sua esposa e seu filho, Murphy tem sua estabilidade abalada quando recebe uma ligação da mãe de sua ex-namorada Electra (Aomi Muyock), que está procurando pela filha. A ligação desencadeia nele uma série de emoções que o fazem recordar de seu relacionamento no passado.

9 – Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças (2004)

O amor é um sentimento feroz que pode nos causar tristeza e alegria simultaneamente. Portanto, amar não é tarefa fácil. Dias de plenitude dão lugar à melancolia com o final dos relacionamentos, momento complicado que nos faz revirar dias passados em busca de uma explicação plausível para algo que talvez seja inexplicável.

Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças discute sobre as memórias e os eventos traumáticos que marcam um relacionamento trazendo um questionamento interessante: e se pudéssemos apagar nossas dores provocadas por ardentes paixões mal resolvidas? Partindo dessa premissa, o filme acompanha a história de Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet).

Desiludida com o fracasso do relacionamento, ela aceita se submeter a um tratamento experimental, que retira de sua memória os momentos vividos com ele. Após saber de sua atitude Joel entra em depressão, frustrado por ainda estar apaixonado por alguém que quer esquecê-lo. Decidido a superar a questão, Joel também se submete ao tratamento experimental. Até que ponto vale esquecer um relacionamento? Afinal, também somos moldados a partir de nossas frustações e momentos ruins também podem servir como algo que nos faz mais fortes no futuro.

8 – Laurence Anyways (2012)

Em um dos filmes mais sólidos de sua carreira, Xavier Dolan (Amores Imaginários, Mommy) discute o amor com seu tom autoral característico em uma história bastante autoral que marca o início de seu amadurecimento como cineasta, que posteriormente seria responsável por Mommy, um dos filmes mais significativos da última década.

Em Laurence Anyways, Dolan nos conta a história de Laurence (Melvil Poupaud), um professor bem-sucedido de quem acompanhamos uma década de vida, tempo suficiente para o aflorar definitivo de sua transsexualidade e da estranheza com que o mundo recebe essa atitude. O problema é ainda mais complexo porque sua orientação sexual é hétero, o que adiciona uma profunda dose de questionamentos e aberturas para discussão diversas ao roteiro. A situação se torna ainda mais complicada quando sua namorada recebe a notícia que Laurence realizará uma cirurgia de mudança de sexo e, mesmo abalada, decide permanecer ao seu lado.

7 – Namorados Para Sempre (2010)

Escrito e dirigido por Derek Cianfrance (O Lugar Onde Tudo Termina, A Luz Entre os Oceanos), Namorados Para Sempre conta a história de Dean e Cindy (Ryan Gosling e Michelle Williams), um casal que se encontra em uma etapa complicada de seu casamento. Ambos são jovens da classe trabalhadora que passam por um momento de crise, vendo o relacionamento ser contaminado por uma série de incertezas. Ele trabalha como pintor, enquanto que ela é enfermeira de uma clínica médica.

Para salvar seu casamento, eles tentam superar os problemas se baseando no passado que fez com que se apaixonassem um pelo outro. O filme descontrói o conceito do amor ideal ao evidenciar que a paixão não dura para sempre; ela vai se deteriorando conforme o tempo passa e é necessário um esforço mútuo das duas partes para mantê-la acessa. A mensagem de Namorados Para Sempre é clara: o amor exige cuidado e atenção para se manter vivo; caso contrário, pode terminar tão rápido quanto começou.

6 – Paris, Texas (1984)

Vencedor da Palma de Ouro de 1984, Paris, Texas explora a vida de um homem que é incapaz de se recuperar da perda de alguém que amava. O diretor Wim Wnder (O Sal da Terra, Asas do Desejo) explora as consequências negativas de eventos traumáticos causados pelo ato de amar.

A trama acompanha Travis Henderson (Harry Dean Stanton), um homem que estava desaparecido há quatro anos desde que sua esposa o deixou. Após andar por um longo período de tempo no deserto, Travis encontra um abrigo e recebe a ajuda de um médico, que informa seu irmão de que havia o encontrado. Após se recuperar, ele parte em uma jornada rumo a Huston para encontrar sua esposa.

Paris, Texas mostra que o amor não é necessariamente bom e pode causar danos permanentes a aqueles que o experimentam. Travis e sua esposa foram inseparáveis um dia, mas o término do relacionamento o deixou tão desiludido que fez com que ficasse desaparecido por quatro anos. Ele vive pelas memórias de algo que talvez nunca se concretize novamente, e as consequências desse modo de vida são extremamente prejudiciais a ele mesmo.

5 – Alabama Monroe (2012)

Um romance trágico sobre perda e luto, Alabama Monroe conta a história de um casal abalado pela morte de sua filha tentando levar adiante o relacionamento, mesmo após uma tragédia tão grande.

Contada por meio de flashbacks, a história intercala momentos de felicidade e tristeza, mostrando como um evento traumático pode gerar a instabilidade emocional. A trajetória do casal e sua difícil tarefa de se adaptar a uma vida sem a pessoa que mais amavam no mundo é desenvolvida de maneira sensível com passagens reflexivas e músicas de Blue Grass Country que estabelecem o tom narrativo, oras triste, oras feliz.

A atmosfera melancólica do filme se dá pela desesperança do amor – ele não vence no final, pelo contrário, o imenso amor que um dia preencheu a vida dos personagens passa a ser um fardo que eles carregam exaustivamente.

4 – Uma Mulher Sob Influência (1974)

Escrito e dirigido pelo cineasta independente John Cassavetes (A Morte de um Bookmaker Chinês, Noite de Estreia), Uma Mulher Sob Influência é o retrato de um amor bagunçado e exaustivo, cujas emoções contraditórias se intercalam entre desejo e repulsa. Dessa forma, o filme mostra que o amor idealizado é uma ilusão; amor não existe sem qualquer tipo de conflito ou desilusão.

Nick Longhetti (Peter Falk) está sobrecarregado, devido ao seu trabalho em um estaleiro. Sua esposa Mabel (Gena Rowlands) passa por uma fase difícil, vivendo em constante desequilíbrio emocional, o que a leva à depressão. Quando os filhos começam a serem afetados pelo estado de Mabel, Nick é obrigado a hospitalizá-la. Só que isto faz com que ele tenha também que assumir o controle de sua casa.

A história reflete o dinamismo das relações amorosas – as relações podem ir de 8 a 80 em um curtíssimo intervalo de tempo. Se em uma hora sentimos atração, no minuto seguinte esse sentimento pode se converter inexplicavelmente em algo oposto, como desprezo e repulsa.

3 – Antes da Meia-Noite (2013)

Antes da Meia-Noite é o último filme da “Trilogia Before” e fecha com chave de ouro a história de Jesse e Celine (Ethan Hawke e Julie Delpy). Enquanto os dois primeiros filmes da trilogia (Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-Sol) contam como o casal se conheceu e seu reencontro nove anos depois, o terceiro filme nos apresenta ao casal em uma união estável, já casados e com filhos.

Se nos filmes anteriores tínhamos a impressão de um relacionamento perfeito, Antes da Meia-Noite revela um lado mais inseguro da relação de Jesse e Celine: eles se encontram em uma fase desgastada do casamento, onde as brigam se tornam rotina e aquele clima romântico que vivam outrora se encontra obsoleto.

Na casa dos quarenta anos, eles devem lidar com problemas que até então não haviam enfrentado em sua relação de encontros e desencontros. Tanto Jesse quanto Celine sacrificaram muitas coisas para se comprometer com a relação – ele abandonou a estabilidade de seu antigo casamento e perdeu contato com o filho; ela, por outro lado, perdeu sua independência e liberdade. Richard Linklater encerra sua trilogia mostrando que para manter um relacionamento é necessário comprometimento e paciência, requisitos que se tornam verdadeiras provações para o casal.

2 – Amor à Flor da Pele (2000)

Amor à Flor da Pele é um filme sobre as possibilidades do amor e das consequências daquilo que foi ou não foi feito. De acordo com o crítico de cinema Roger Ebert “É sempre muito cedo ou muito tarde para o amor em um filme de Wong Kar-wai, e seus personagens passam o resto de seus dias nutrindo o sentimento de saudade e arrependimento”. Esse é o ponto de partida para Amor à Flor da Pele e toda a atmosfera de tensão que dá o tom do filme.

Chow (Tony Leung Chiu Wai) e sua mulher acabaram de se mudar. Logo, ele conhece Li-Zhen (Maggie Cheung), uma jovem que também acabou de se mudar com o marido. Ele trabalha para uma companhia japonesa, o que significa que está frequentemente viajando. Como sua mulher também fica, muitas vezes, longe de casa, Chow passa muito tempo com Li-zhen. Eles se tornam amigos e, um dia, são forçados a encarar os fatos: seus respectivos parceiros estão tendo um caso.

Basicamente, o amor é feito de escolhas. Os sentimentos são inevitáveis, mas sempre temos a escolha de dizer para alguém aquilo que sentimentos por ela. A tensão que se instaura quando nada é dito pode ser cruel; os dois lados sabem o que se passa, mas por razões maiores nada pode ser feito a respeito, restando apenas a sensação de que nada pode ser a feito a respeito. No caso de Chow e Li-zhen, ambos sentem uma conexão real que poderia resultar em algo maior, porém as circunstâncias acabam por coloca-los em uma posição delicada onde que lhes cabe apenas lamentar pela perda um do outro.

1 – Amor (2012)

Vencedor da Palma de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro em 2012, Amor discorre sobre os perigos da dependência mútua criada em uma relação amorosa. O diretor Michael Haneke (A Fita Branca, Caché) capta perfeitamente o estado de vulnerabilidade e sofrimento a que uma pessoa está submetida quando sua existência está intrinsecamente ligada à de outro alguém.

Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva) são um casal de aposentados apaixonados por música. Eles têm uma filha musicista que vive em outro país. Certo dia Anne sofre um derrame e fica com o lado esquerdo de seu corpo paralisado. A partir de então, George assume a responsabilidade de cuidar da mulher que ama, já que ela perdeu completamente sua autonomia, assim como seu desejo de viver.

A relação do casal, que viveu junto pela maior parte de sua vida, atingiu um estágio em que a felicidade de um depende completamente da felicidade do outro. Ambas as partes devem estar em equilíbrio para que o relacionamento esteja saudável; a felicidade de George depende da presença e do bem-estar de Anne.

Quando o estado de saúde de Anne se agrava, George se torna seu cuidador pessoal, atingindo um nível de proximidade em que a identidade dos dois começa a se mesclar até o ponto em que a dor de um se torna a dor do outro. A partir do momento em que sua amada afirma não sentir mais vontade de viver, seu sofrimento se torna ainda mais intenso. Para ele, é impossível enxergar a possibilidade de viver sem Anne ao seu lado. Esse é um retrato de um lado delicado do amor, onde a alegria dá lugar a um sofrimento sem fim cuja tendência é apenas se agravar conforme o tempo passa.

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