Crítica: Blade of the Immortal (2017)

Com Blade of the Immortal (2017), Takashi Miike atinge a marca de cem filmes dirigidos ao longo de sua carreira, que já rendeu obras memoráveis como Audition (1999), Ichi – The Killer (2001) e Três… Extremos (2004). Miike também mostrou sua competência com os filmes de samurai ao dirigir o recente 13 Assassinos (2010), onde incorpora elementos recorrentes em sua filmografia como a violência extrema e batalhas realistas em um universo construído brilhantemente nos mínimos detalhes; características que se repetem em Blade of the Immortal, mas no lugar de lutar épicas em campos abertos, a narrativa se desenrola por meio de embates individuais que conduzem o protagonista ao seu objetivo final.

Adaptado do mangá de mesmo nome, a história acompanha Manji (Takuya Kimura), um samurai condenado à imortalidade. Apesar de ser um imortal, Manji é alguém vulnerável que vive em um estado constante de luto e arrependimentos proveniente de seu passado. Portanto, sua imortalidade é muito mais uma maldição do que uma benção. A condição de Manji se assemelha à de criaturas famosas na literatura de horror clássico, como os fantasmas e os vampiros: seres forçados a permanecer na Terra contra sua vontade cuja existência se resumo a um ciclo infinito de dor e sofrimento.

Protagonista do filme Blade of the Immortal com uma expressão furiosa enquanto luta contra diversos inimigos.

A partir do momento em que conhece Rin Asano (Hana Sugisaki), o protagonista finalmente encontra a possibilidade de redenção. Ela é uma garota que teve a família assassinada por um grupo de assassinos mortais e vê em Manji a única forma de se vingar daqueles que destruíram sua vida. O grupo é liderado por Kagehisa Anotsu (Sota Fukushi), um homem que segue um estilo de luta visto com maus olhos pelos espadachins locais por utilizar o machado como arma principal. Por esse motivo, Kagehisa e seus antepassados foram humilhados e excluídos pelos dojos aos quais juraram lealdade, sendo forçados a seguir um caminho de reclusão que visa subverter a ordem vigente para provar que nenhum estilo de luta é superior a outro.

De um lado, temos um antagonista extremamente habilidoso e temido por todos que o conhecem, ainda que seu potencial se mantenha oculto durante grande parte da trama; do outro, um samurai que busca se livrar de seus fantasmas do passado utilizando sua imortalidade para proteger os mais fracos.

Esse é o cenário perfeito para construir a tensão que sustenta a obra até os minutos finais: Manji é submetido a uma série de provações para chegar até o homem que almeja; para isso, deve enfrentar individualmente os capangas de Kagehisa em batalhas viscerais repletas de sangue e membros cortados.

A grande quantidade de vilões não compromete o desenvolvimento desses personagens. Todos são desenvolvidos com competência e se mostram figuras marcantes, seja pelo estilo de luta, pelo passado enigmático ou pelas motivações sombrias que carregam. Ao longo de sua jornada, Manji enfrenta um assassino que também é amaldiçoado com a imortalidade; uma mulher que chora de remorso após derrotar seus oponentes; um assassino macabro que usa o corpo de suas vítimas como arma; entre outros personagens que ajudam a manter a ação de alto nível e sustentam o universo fantástico do filme, cujo tom cartunesco proveniente das armas e dos figurinos se contrapõe ao realismo das batalhas e paisagens desoladas que exaltam a existência de uma ameaça iminente.

Dois personagens do filme blade of the immortal de pé segurando suas armas em frente a um rio.

Adaptar 30 volumes de um mangá para um único filme não é tarefa fácil. Somente um diretor experiente como Takashi Miike seria capaz de cumpri-la sem ferir o legado da obra original. Para isso, o diretor usa uma técnica bastante convencional, porém efetiva dentro da proposta do filme, onde as batalhas individuais se intercalam com flashbacks do passado, culminando em um evento de escala épica que leva a ação samurai ao seu ápice. Ao longo do trajeto, somos contemplados com a violência brutal característica do cinema de Miike, que corresponde às expectativas por um ótimo filme de ação repleto de cenas marcantes em que a carnificina se faz constantemente presente.

Apesar de tudo, as duas horas e meia de projeção podem ser um obstáculo até para os fãs mais aficionados pelo gênero. A narrativa pode perder seu impacto em certo ponto do filme, mais precisamente quando estamos ávidos pelo confronto final e somos apresentados a novos inimigos e potenciais aliados que já não fazem muito sentido dentro do contexto geral.

Takashi Miike entrega uma obra sólida como o centésimo filme de sua carreira, capaz de agradar tanto ao espectador que busca apenas um bom entretenimento quanto aqueles que já é familiarizado com o trabalho do cineasta e possui certas expectativas acerca de seu trabalho. Com sequências de luta brilhantes, atuações precisas e um universo incrível que transita entre a fantasia e a realidade, Blade of the Immortal é um filme de samurai que vai além da superfície ao conciliar a ação visceral com os dilemas morais enfrentados pelo protagonista ao longo de sua jornada.

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