8 filmes de terror do século XXI que quebram convenções do gênero




Recomendo a leitura do texto abaixo antes de o leitor ir para a lista. Estas poucas palavras servem para traçar um panorama geral da situação do terror contemporâneo e estabelecer as bases que sustentam a proposta do post.

Presente no cinema desde seus primórdios, o terror é um gênero que já passou por muitas fases e, por isso, precisa se reinventar frequentemente para que seja relevante e não caia na mesmice.

Na década de 1930 filmes como Drácula (1931), A Múmia (1932) e Frankenstein (1931) popularizam os monstros em Hollywood e mostraram como o terror é capaz de gerar ótimas bilheterias e render franquias altamente populares; na década de 1950 o resgate de franquias que fizeram sucesso no passado rendeu filmes emblemáticos como Drácula (1958), eternizado por Christopher Lee, e A Maldição de Frankenstein (1957).

Na década seguinte, o gênero respirou novos ares graças ao trabalho de diretores que trouxeram uma nova proposta ao terror, como Roman Polanski com O Bebê de Rosemary (1968) e A Dança dos Vampiros (1967); George Romero com o icônico A Noite dos Mortos Vivos (1968); e Alfred Hitchock, o mestre do suspense que dirigiu filmes como Psicose (1960) e Os Passáros (1963). Com a chegada dos anos 80, o terror reviveu seus dias de ouro: além da popularização do subgênero de filmes slashers, houve também o surgimento de cineastas que estabeleceram diretrizes importantes para o terror, como David Cronenberg e Sam Raimi.

Essa breve introdução à história do terror no cinema serve para mostrar como o gênero está em constate metamorfose e que é um reflexo da época em que foi produzido. O cinema de terror contemporâneo tem sido marcado por uma onda de filmes que repetem os velhos clichês sem propor nenhum tipo de inovação, tudo para conquistar o grande público e, assim, trazer uma receita satisfatória para os estúdios. É claro que nem todos os filmes do gênero seguem essa fórmula; existem cineastas se arriscando e propondo uma nova abordagem ao terror, o problema é que dificilmente esses filmes conseguem a atenção da mídia e do público, e quando conseguem, acabando desagradando parte dele.

A baixa aceitação aos filmes de terror com abordagens inusitadas é o que os mantêm em circuitos menores, restritos a um público limitado que consegue enxergar o esforço e a coragem necessários para produzi-los. Isso não quer dizer que os filmes com grande apelo de público sejam ruins, vemos exemplos que seguem uma fórmula clássica e alcançam resultados satisfatórios, como Sobrenatural (2010) e A Entidade (2012).

Com o ingresso do cinema cada vez mais caro, é compressível que o público fique com o pé atrás na hora de escolher um filme para assistir, ainda mais no que diz respeito ao terror, um gênero de apelo tão abrangente. A maioria das pessoas não quer sair da zona de conforto: se vou ao cinema, quero um filme que me assuste e me faça sentir medo durante as duas horas que passo ali dentro. Não há nenhum problema nisso, mas chega uma hora em que os estúdios se tornam reféns da audiência e passam a investir somente em produções com retorno monetário seguro, o que explica a proliferação de filmes como Annabelle (2014), os últimos filmes da franquia Atividade Paranormal e o resgate de franquias icônicas do passados adaptadas a filmes de qualidade questionável.

Essa fase do terror é marcada por técnicas que se tornam cada vez mais desgastadas, sendo o jumpscare a mais recorrente entre elas. Longe de ser saudosista, mas parece até que o terror se esqueceu de que é possível aterrorizar através da construção de atmosfera ou personagens intrigantes. Logo, resgatar aquilo que deu certo no passado e manter aquilo que está funcionando no presente passa a ser quase que mandatório para grande parte dos filmes de terror atuais.

Hoje quero falar sobre filmes de terror que quebram convenções do gênero ao propor novas abordagens que fogem do senso comum e se mostram relevantes em meio a uma onda de filmes que caem na mesmice devido ao medo de arriscar. Quebrar convenções do gênero não significa que estes filmes são completamente inovadores ou que estão fazendo algo nunca visto antes na indústria cinematográfica. Muitos deles se espelham em obras do passado para construir sua narrativa, mas o fazem de forma inovadora e relevante para o tempo em que foram produzidos.

8 – REC (2007)

Se em 1999 A Bruxa de Blair popularizou o found footage, o filme espanhol REC foi capaz de aperfeiçoar esse subgênero e conferir através dele uma veracidade muito maior ao filme que seus antecessores falharam em alcançar. Ambientado praticamente em uma única locação, o filme narra o desespero de uma equipe de filmagem que ficou presa dentro de um prédio repleto de pessoas agressivas contaminadas por um vírus desconhecido.

O barulho causado por REC foi tanto que outras três sequências foram produzidas pouco tempo depois e uma versão americana intitulada Quarentena foi lançada, mas não foi capaz de chegar perto da grandiosidade de sua obra inspiradora. O modo como é filmado ajuda o filme a construir a atmosfera de tensão que propõe, fazendo com que ela cresça gradualmente até culminar em um clima de pânico incessante que atinge seu ápice na sequência final.




7 – Todo Mundo Quase Morto (2008)

Um filme de comédia ou terror? Por que não os dois? O terror não precisa se levar tão a sério – essa é a fórmula que consagrou diversos clássicos do gênero ao longo da história, como foi o caso de The Evil Dead (1981) e Re-Animator (1985). Brincar com as expectativas do público e retratar figuras tão assustadoras como são os zumbis pelo viés da comédia foi a sacada genial de Edgar Wright (Baby Driver, Scott Pilgrim) em seu filme Todo Mundo Quase Morto.

Poupando-se de qualquer tipo de heroísmo e narrado de forma imparcial, o filme acompanha dois homens comuns que vivem vidas monótonas tendo que sobreviver a um apocalipse zumbi. Uma das grandes sacadas do roteiro é explorar, nos primeiros momentos do apocalipse, a total ignorância dos protagonistas em relação à gravidade da situação em que eles estão. Isso fica evidente no brilhante plano sequência em que Shaun (Simon Pegg) vai ao mercado e não percebe os vestígios de uma carnificina sangrenta pelo ambiente é um primor, que também revela o incrível talento de Wright para a comédia visual.

6 – Violência Gratuita (2007)

O filme dirigido por Michael Haneke (A Fita Branca, Amor) é uma refilmagem idêntica do filme de mesmo nome feito 1997. Basicamente, as únicas diferenças entre as duas versões são os atores e o idioma – a primeira versão é austríaca; a segunda, americana. Seguindo o estilo de home invasion, a trama narra a história de um casal que tem sua residência invadida por dois jovens que planejam jogar jogos sádicos com eles sem motivos aparentes.

De acordo com o próprio diretor, o filme é uma crítica à indústria cinematográfica e toda a violência sem sentido propagada por ela. Por esse motivo, Violência Gratuita (note a ironia do título) não possui nenhuma cena de violência explícita, ela é sempre subjetiva – você sabe o que está acontecendo, mas não existe a necessidade de escancarar a violência em sua cara. É incrível como essa proposta funciona e cumpre a missão de deixar o espectador chocando com a violência que está sendo sugerida nas cenas.

A quebra da quarta parede também é um fator que deve ser levado em conta. Muito utilizada em outros gêneros cinematográficos, essa técnica raramente é vista no terror, e Haneke a executa com perfeição. Outro momento que subverte os clichês do gênero é a famosa cena do controle remoto, onde os personagens são capazes de reverter um evento inesperado do filme, quebrando qualquer esperança que o espectador pudesse ter de ver um final feliz.

5 – A Bruxa (2015)

A Bruxa é o tipo de filme que divide opiniões: haverá sempre alguém para criticá-lo e outro alguém para defende-lo. Eu faço parte desse segundo grupo, mas entendo perfeitamente os motivos das pessoas que criticam o filme. Vendido como aterrorizante e assustador, A Bruxa está longe de ser aquilo que sua campanha de marketing propunha. Não há sustos ou seres do outro mundo, o terror é algo muito mais sútil, proveniente de uma atmosfera imersiva e aspectos técnicos como a ótima trilha sonora e ambientações impecáveis.

A trama gira em torno de uma família que foi expulsa de uma comunidade cristã e então é forçada a se mudar para um local isolado, longe de qualquer tipo de civilização. Não demora muito até que eventos estranhos comecem a acontecer por ali e colocar as crenças da família em xeque, fazendo com que cada um de seus membros duvide de sua própria fé e passe a encarar seus piores medos. Repleto de simbolismos, o filme quebra certas convenções do gênero, principalmente do terror contemporâneo, ao propor uma forma mais subjetiva de aterrorizar o espectador, partindo para um lado mais psicológico e menos literal, em que cada pequeno elemento que compõe o filme exerce uma função específica nesta função.

4 – Deixa Ela Entrar (2008)

Não são novidades para o cinema produções sobre a figura mitológica de vampiros, e há muito tempo o assunto é abordado em filmes ora bem realizados, como Nosferatu (1922 ou 1979, as duas versões são ótimas), ora em baboseiras comerciais sem qualquer relevância, como é o caso da saga Crepúsculo (2008-2012). Em geral, o que falta a essas produções menos interessantes é o que Deixa Ela Entrar apresenta na medida certa: personagens complexos, trama inteligente e uma mensagem interessante que se estende à natureza humana.

A história acompanha a relação desenvolvida entre Oskar (Kare Hedebrant), um garoto solitário de 12 anos que passa por problemas no âmbito escolar e família, e Eli (Lina Leandersson), uma garota reclusa que esconde muitos segredos. O roteiro se sustenta a partir da interação entre esses dois personagens e suas possíveis consequências.

Não há nada gratuito e o sangue não jorra aos litros, mas as cenas são perturbadoras o suficiente para ficar na mente muito tempo depois do final da projeção. O lado solitário dos protagonistas e o tom melancólico do filme estabelecem uma abordagem diferente ao subgênero dos vampiros, resultando em um filme único que certamente figura entre um dos mais exemplares do terror produzidos na última década.

3 – Extermínio (2002)

Apesar de ser ambientado em um universo pós-apocalíptico, o terror presente em Extermínio não se dá pela figura dos zumbis, mas pelo cenário caótico e desolado em que a trama se desenvolve. Dirigido por Danny Boyle (Quem Quer Ser um Milionário?, Trainspotting), o filme narra as semanas que sucedem a epidemia de um vírus que destruiu a Inglaterra.

Ao contrário da maioria dos filmes de zumbis, a narrativa não se concentra na causa, mas sim na consequência. Toda a histeria dos estágios iniciais da epidemia do vírus é tão importante quanto a luta por sobrevivência nas semanas posteriores ao evento.

Os zumbis sempre foram uma metáfora social para a desesperança das pessoas em entidades superiores e a incapacidade do governo de administrar situações de riscos. Essa metáfora se encaixa perfeitamente em Extermínio devido à capacidade do filme de ilustrar com precisão o resultado de um apocalipse zumbi: não há governo ou qualquer tipo de ordem, as pessoas devem lutar por sua própria sobrevivência por mais complicado que isso seja.

2 – O Segredo da Cabana (2012)

Com diversas referências a filmes de terror da década de 1980, o clima de nostalgia presente em O Segredo da Cabana se contrapõe à crítica ácida que o filme estabelece à indústria cinematográfica do terror e, mais que isso, ao público em geral, quebrando a quarta parede para nos perguntar diretamente por que somos tão aficionados em consumir filmes que seguem exaustivamente a mesma fórmula.

Inicialmente, a história se assemelha a qualquer outra de um filme de terror genérico: temos o esportista, a garota sexy, o pseudo-cult que adota se gabar de seus feitos, o usuário de drogas desengonçado e, por fim, a garota inteligente (em um filme de terror convencional, ela seria a final girl). Os personagens estereotipados presos em uma casa onde eventos sobrenaturais começam a acontecer nos dá a impressão de que estamos prestes a assistir mais um terror esquecível, mas conforme a história se desenrola, o que acontece é exatamente o oposto.

A forma bizarra como os eventos vão se desencadeando pode causar um choque inicial, mas após uma breve reflexão sobre o que nos é apresentado, o saldo é positivo. Incluir diversos subgêneros do terror em um só filme é um artíficio que foge do senso comum, mas é executado com maestria em O Segredo da Cabana e funciona para nos dar um panorama geral de como o gênero se encontra, bem como suas possíveis consequências caso não mudemos nossos hábitos de consumo.

A mensagem presente em O Segredo da Cabana veio em um momento completamente oportuno. Conforme pagamos para assistir filmes que não se esforçam para tentar trazer algo de novo, estamos incentivando a indústria a se manter nesse ritmo preguiçoso e, consequentemente, confinando o terror a um ciclo repetitivo que se baseia na reciclagem de franquias famosas para cativar audiência.

1 – Martyrs (2008)

Clássico moderno do terror, Martyrs é um filme francês que se baseia na ganância humana para contar uma história brutal sobre violência, vingança e busca pelo desconhecido. O que faz de Martyrs um dos melhores e mais inventivos filmes de terror do século XXI é que sua proposta não se limita apenas ao gore e à atmosfera aterrorizante, ela possui uma mensagem profundamente filosófica em relação à condição de servidão e impotência a que a humanidade está submetida.

A trama é desenvolvida em dois atos: o primeiro marcado por vingança e automutilação; o segundo por tortura e busca pela verdade divina. Tudo começa quando Lucie (Mylène Jampanoi), acompanhada de sua amiga de infância Anna (Morjana Alaoui), vai até a casa da família da família que a torturou durante anos para assassiná-los e, assim, exorcizar seus demônios interior. Ela cumpre seu objetivo primário ao matar todos os moradores da casa, mas logo sente-se extremamente incomodada por coisas de sua própria cabeça e o que vem a partir daí é uma jornada a um universo obscuro do qual uma delas seria forçada a participar.

A violência incessante de Martyrs não é gratuita, pelo contrário, possui um propósito singular que está diretamente relacionado ao conceito proposto pelo título do filme. Mártires não surgem da alegria ou de condições agradáveis, eles são produtos do sofrimento e descontentamento com as condições impostas.

Assim como outros títulos da New French Extremity, esse filme tem a capacidade de chocar o público e mantê-lo em estado de choque constante por motivos que vão além do simples gosto pela violência ou qualquer outro motivo banal. Obra-prima do terror contemporâneo, Martyrs é um filme obrigatório para qualquer pessoa que se diga fã de terror.

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