12 filmes sobre o sentimento de não pertencer a lugar nenhum

Entre as constantes mudanças da vida, tenho sentido a estranha sensação de não pertencer a lugar nenhum. Parece que não importa para onde eu vá, esse sentimento está sempre comigo, em algum lugar da minha cabeça sussurrando que as coisas não irão funcionar. A vontade que tenho é de fazer as malas e sair por aí, sem rumo; conhecer novas pessoas e ter contato com outras culturas. As responsabilidades da vida adulta me impedem de realizar esse desejo, mas parte dele pode ser saciado através de algo que eu amo: o cinema.

Devido às minhas experiências pessoais, fico deslumbrado com personagens socialmente inadequados e que carregam consigo o sentimento de não pertencer a lugar nenhum. Essas histórias me fascinam por retratarem um sentimento tão verdadeiro e que, ainda assim, praticamente não é debatido.

A lista de hoje lembra um pouco a de filmes sobre tristeza e solidão que fiz há algum tempo atrás, a única diferença é que dessa vez os personagens não são necessariamente tristes, são apenas pessoas buscando um significado para sua jornada neste mundo, nem que para isso precisem percorrer distâncias sobre-humanas.

 12 – O Homem Elefante (1980)

O segundo longa-metragem de David Lynch conta a história real de John Merrick (John Hurt), um desafortunado cidadão da Inglaterra vitoriana portador do caso mais grave de neurofibromatose múltipla registrado até então, tendo 90% do corpo deformado.

A história mostra como aparência está diretamente relacionada a aceitação social. Apesar de talentoso e inteligente, John Merrick viveu o inferno na Terra devido a sua mutação. Por mais que tentasse de adequar à sociedade, ele jamais poderia viver normalmente em um sistema que não sabe conviver com as diferenças alheias. Portanto, não há escapatória para o protagonista – esse mundo jamais o aceitaria pelo que ele é, não restando alternativa senão viver uma vida de agonia e sofrimento.

11 – Encontros e Desencontros (2003)

Os cartazes exibindo sorrisos e famílias felizes são uma cena comum nas cidades grandes, mas essa não é a realidade vivida por seus habitantes. Na verdade, a cidade grande pode ser um atenuante ao sentimento de depressão e infelicidade cada vez mais comum no século XXI.

O drama dirigido por Sofia Copolla utiliza a cidade de Tóquio como cenário para contar a história de duas almas fragilizadas (Scarlett Johansson e Bill Murray) que encontram na companhia do outro uma forma de amenizar o estado de infelicidade em que se encontram. A desconexão dos dois com a cidade pode ser interpretada como uma metáfora para a sensação compartilhada por ambos de não pertencerem a lugar nenhum.

10 – Ghost in the Shell (1995)

Ghost in the Shell se diferencia dos filmes dessa lista por dois motivos: é uma animação e o personagem em questão não é complemente humano, mas sim uma ciborgue. A história, adaptada do mangá de mesmo nome, levanta uma profunda reflexão sobre existência ao narrar a história de uma policial ciborgue buscando descobrir a identidade de um hacker conhecido como “Mestre dos Fantoches”.

A sensação de não pertencer a lugar nenhum que a protagonista sente se dá a partir de suas dúvidas em relação a própria existência. Como grande parte de seu corpo foi artificialmente modificada, ela passa a questionar a veracidade de suas memórias e da autenticidade de seu ser. Daí o nome “Ghost in the Shell”, que em uma tradução ao pé da letra seria algo como “O Fantasma Dentro da Concha” – no caso O Fantasma sendo a alma e A Concha o corpo. A desconexão de Motoko Kusanagi com o mundo que a cerca faz com que ela se sinta um organismo separado de todo o resto; alguém que é oprimido pelos arranha-céus de uma Tóquio futurística e tem como única válvula de escape as profundezas do oceano, onde pode sentir os sentimentos que lhe são negados em meio à cidade.

9 – Garota, Interrompida (1999)

Susanna Kaysen (Winona Ryder) é uma jovem que sonha em ser escritora, mas seu plano é interrompido após ela tomar um vidro de aspirinas com 4 litros de vodca para se livrar de uma dor de cabeça. A partir daí, ela é diagnosticada com um distúrbio de personalidade e vai para um centro de reabilitação, cheio de garotas vistas como mentalmente desequilibradas pela sociedade.

Apesar de a história ser contada sob a ótica de Susanna, não é por causa dela que Garota, Interrompida está nessa lista. O motivo de eu ter incluído esse filme se deve à personagem interpretada por Angelina Jolie, Lisa, uma garota extremamente charmosa que tem o poder de manipular todos ao seu redor, mas vive em um estado de infelicidade agravado por seu complexo de personalidade. Sua atitude autodestrutiva cria uma barreira para que ela crie laços com outras pessoas e impede que ela se estabeleça em qualquer lugar. De uma forma geral, todas as personagens do filme que habitam o centro de reabilitação compartilham o sentimento de não pertencer a lugar nenhum, mas é em Lisa que ele se torna mais evidente.

8 – O Substituto (2011)

O Substituto é um relato duro, cruel e realista sobre a complexidade das relações humanas que nos fazer pensar na vida e nas relações que desenvolvemos com as pessoas ao nosso redor. O título original do filme, “Detachment”, se encaixa perfeitamente no propósito dessa lista. De acordo com a definição do dicionário, o termo “Detachment” se refere ao ato ou processo de se separar. No caso do filme, essa palavra se refere a alguém que não se adequa ao mundo e encontra sérias dificuldades em estabelecer laços afetivos com outras pessoas.

Apesar da precisão inigualável do título original, o nome do filme adaptado para o português também funciona muito bem: O Substituto se refere ao professor (Adrien Brody) que dá nome à obra, um homem que evita se envolver com as pessoas e leva essa mesma filosofia para o seu trabalho. Trata-se de alguém que chega, faz o que tem que fazer e logo vai embora, sem criar uma ligação afetiva com ninguém. O mesmo princípio que o professor adota em sua metodologia de trabalho aplica-se a sua vida pessoal. Ele vive uma vida vazia, preso em seus próprios pensamentos, incapaz de externalizar qualquer tipo de emoção ou sentimento, o que faz dele um sujeito contestador que não se adequa socialmente e vive amargurado em suas crises existenciais.

7 – Mommy (2014)

Xavier Dolan é um diretor que divide opiniões, mas Mommy é inegavelmente um dos filmes mais representativos desta geração e marca amadurecimento de Dolan como cineasta. A história narra o drama de Steve (Antoine-Olivier Pilon), um jovem que voltou a morar com a mãe após ser expulso do reformatório onde vivia, mas encontra dificuldades em se adaptar a sua nova condição.

As angústias de Steve se manifestam em forma de agressividade, o que acaba prejudicando sua relação com todos que o cercam e exercendo efeitos autodestrutivos no garoto. O sentimento de não pertencer a lugar nenhum pode ser extremamente agoniante e levar a caminhos complicados cujas consequências consistem na distorção da personalidade do indivíduo. A saída para tal situação varia de pessoa para pessoa – alguns conseguem revertê-la através de uma jornada de autoconhecimento, mas outros sentem uma dor tão insistente que a única saída pode ser o suicídio.

6 – Dead Man (1995)

Todos os filmes desta lista tratam do desprendimento do homem com o mundo físico, exceto Dead Man. O filme de Jim Jarmusch estrelado por Johnny Depp conta a história de um homem que se muda para uma pequena cidade na intenção de assumir uma vaga de trabalho que lhe fora proposta. Chegando lá, ele descobre que sua vaga já havia sido ocupada.

Procurando uma forma de se redimir, ele acaba se envolvendo com uma ex-prostituta e é baleado pelo marido dela, mas consegue revidar e fugir de seu agressor, iniciando uma jornada de espiritual acompanhado de um índio nativo dos Estados Unidos do século XIX. Sem ter para o ir, além de fugir daqueles que desejam assassiná-lo, o protagonista entra em uma saga de desprendimento do mundo tangível, onde os simbolismos e os ensinamentos enigmáticos do índio colocam o espectador em uma dúvida constante quanto ao fato de os personagens estarem vivos ou mortos.

5 – Os Amantes da Ponte Neuf (1991)

Na Pont-Neuf, ponte mais antiga de Paris, Alex (Denis Lavant) é um performer de circo viciado em álcool e sedativos, e Michele (Juliette Binoche) é uma pintora condenada à vida nas ruas por um relacionamento fracassado e que sofre com uma doença que compromete sua visão. Estas duas figuras marginalizadas se envolvem em uma relação de dependência, que dispensa os clichês românticos para explorar a questão da solidão em meio a uma sociedade incapaz de enxergar aqueles que não se adaptam às “normas sociais”.

Personagens marginalizados transitando como fantasmas nas ruas movimentadas de Paris são elementos recorrentes na filmografia de Léos Carax. Em Os Amantes da Ponte Neuf esse artifício se repete para evidenciar lacunas sociais na sociedade francesa e o sentimento de solidão ao qual todos os seres humanos estão sujeitos. Apesar de sua atmosfera poética, o filme não romantiza a situação conturbada em que os dois personagens se encontram, pelo contrário, eles simbolizam a desesperança que cresce gradativamente em figuras marginalizadas por uma sociedade indiferente à sua condição.

4 – Medianeras: Buenos Aires na Era do Amor Virtual (2011)

Por mais estranho que pareça, o sentimento de não pertencer a lugar nenhum aparenta ser ainda mais recorrente na cidade grande. O filme argentino Medianeras utiliza a arquitetura da cidade de Buenos Aires para traçar um paralelo com as emoções humanas, pontuadas através de dois jovens que enfrentam dificuldades para lidar com a solidão.

Martin (Javier Drolas) é um programador que passa por um momento de depressão e mal sai de seu quarto. Sua vizinha, Mariana (Pilar López de Ayala), é uma decoradora de vitrines desiludida com a vida que compartilha do mesmo sentimento. Mesmo rodeados de pessoas, os dois parecem não se adequar à cidade, assim como a cidade não se adequa a eles.

3 – Os Incompreendidos (1959)

O longa de estreia de François Truffaut marca um dos primeiros passos da Nouvelle Vague ao explorar as relações interpessoais em um filme com a liberdade técnica e narrativa que abriu novos horizontes para o cinema francês. As relações interpessoais em Os Incompreendidos são retratadas em um tom documental e se concentram no campo familiar e infanto-juvenil, mostrando a difícil adaptação de Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud) em relação à sua escola, sua família e o mundo à sua volta.

Dentre todos os subtemas que podemos trazer à tona, o mais impressionante é a solidão, sentimento que marca a vida de Doinel do começo ao fim do filme, especialmente no fim, com a metáfora da corrida na areia da praia, que simboliza perfeitamente seu sentimento de deslocamento social. A história nos apresenta a diversos lugares de Paris, desde o subúrbio até as regiões centrais, lugares onde o protagonista transita sem rumo certo enquanto divaga sobre as coisas que a vida lhe reserva e as possibilidades restritas de um futuro que não se mostra muito promissor.

2 – Na Natureza Selvagem (2007)

Sair de casa para viajar grandes distâncias vai muito além de conhecer novas pessoas ou lugares. Trata-se de uma jornada de autoconhecimento, onde cada experiência conta para que possamos nos conhecer melhor, e assim, atingir a plenitude de nosso ser.

Ambientado no início da década de 1990, Na Natureza Selvagem conta a história real de Christopher McCandless (Emile Hirsch), um jovem que após se formar decide atravessar os Estados Unidos rumo ao Alasca. Durante o trajeto, ele se relaciona com todo tipo de pessoa que cruza seu caminho e demonstra um interesse genuíno em absorver o que cada uma delas tem para lhe ensinar.

Com paisagens de abrilhantar os olhos, a jornada de McCandless é um grito de protesto contra a hipocrisia, as mentiras e a superficialidade das relações humanas, que teriam sido deterioradas pela moral vigente. Todo o aprendizado acumulado pelo protagonista durante a viagem leva a um grande ensinamento: “A felicidade só é real quando compartilhada”. Em outras palavras, podemos tentar escapar da realidade ou fugir daquilo que nos faz mal, mas a plenitudade nunca será alcançada se estivermos completamente sozinhos – da mesma forma que experiências são mais valiosas quando compartilhadas, a felicidade precisa ser compartilhada para que seja verdadeira, do contrário, é um sentimento que beira o egoísmo ao privar o próximo de algo tão nobre.

1 – Frances Ha (2012)

Todo jovem adulto na casa dos vinte e tantos anos se identifica com Frances Ha. A maioria das pessoas que se encontram nessa fase de transição compartilham uma série de características com a protagonista do filme, como a conta bancária beirando o negativo, a dificuldade de encontrar um lugar para morar e o fracasso da vida amorosa quando todos os seus amigos já estão quase se casando.

Com apenas 86 minutos de duração, o filme de Noah Baumbach conta uma história simples, porém extremamente sensível de uma jovem (Greta Gerwig) que não tem emprego formal e é dispensada por sua colega de quarto com quem dividia o aluguel. Apesar de tudo, ela mantém o otimismo e busca encontrar a felicidade enquanto faz o que for necessário para sobreviver na cidade de Nova Iorque.

As incertezas e dificuldades da vida adulta fazem com que a protagonista sinta uma certa dificuldade em se adequar socialmente, sendo ocasionalmente aquela pessoa questionadora nos jantares de amigos e, por contestar ideias encravadas no senso comum, acaba se sentido deslocada. Sua personalidade irreverente e sonhadora contrapõe as dificuldades que enfrenta, mas ela prefere manter tudo isso para si mesma. Pulando de quarto em quarto, Frances decide viajar para Paris na tentativa de se livrar de suas angústias, uma fuga que ajuda a quebrar a monotonia do dia a dia e reavaliar seus conceitos quanto aos rumos que deve tomar em sua vida.

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  1. Ótima lista, ver indicações de filmes sobre esse tema é fundamental. Como vc disse acima isso praticamente não é debatido dentro do cinema e saber que existe filmes assim é revigorante para alguém que sofre desse problema como eu 🙁

  2. gosto do gênero , por isso já vi alguns do filme da lista . E a forma de vc falar sobre cada um deles , fez com que eu queira ver o que não assisti ainda e rever os que já vi . E na linha de dicas gostaria de falar de um filme que vi a muito tempo , Ensina-me a viver .
    Parabéns pelas dicas .

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