Crítica: A Ghost Story (2017)

Em julho de 2017, o crítico de cinema do jornal inglês “The Guaridan”, Steve Rose, gerou uma acalorada discussão ao sugerir a existência de uma nova linha dentro do terror: o pós-horror. Esta classificação se refere a uma nova onda de filmes de terror independentes que se arriscam a fugir das convenções do gênero e, por isso, acabam agradando somente a crítica e não o grande público. Filmes como Corrente do Mal (2014), A Bruxa (2015) e A Ghost Story (2017) são alguns dos exemplos citados pelo crítico para comprovar sua afirmação.

Há quem diga que o pós-horror é uma classificação válida e há quem discorde, mas é certo que essa nova safra do terror recicla alguns paradigmas que foram adotados exaustivamente nos últimos anos. O filme A Ghost Story inova em sua proposta ao se apropriar da figura do fantasma para contar uma história sobre solidão e mortalidade, mostrando o fantasma não como uma criatura aterrorizante e assustadora, mas como um ser angustiado que vaga sem propósito pelo mundo e vê sua existência cada vez mais insignificante a medida que tudo e todos que conhece deixam de existir.

A trama gira em torno de um casal (Rooney Mara e Casey Affleck) que tem sua estabilidade abalada quando um deles é morto em um acidente. Após o acidente, o marido volta à vida na forma de um fantasma e vai até sua casa na esperança de consolar sua esposa. Porém o tempo logo se revela como seu pior inimigo. Sua esposa, que inicialmente encontrava-se extremamente abalada, passa a superar a morte de seu marido e seguir a vida, de modo que ele continue ali na casa como um fantasma, observando tudo acontecer sem poder fazer nada, apenas lamentar.

Os primeiros minutos passam a impressão de que acompanharemos a história de um casal vivendo em uma casa mal-assombrada, mas assombrações estão longe de ser o foco de A Ghost Story. Como o próprio nome sugere, a narrativa acompanha a vida de um fantasma, desde seus momentos iniciais quando se levanta da cama do hospital até o momento em que se dá conta de sua condição e assume a posição de observador, contemplando os acontecimentos que ocorrem na casa em que antigamente viveu uma vida feliz ao lado de quem amava.

A história do fantasma não mostra o lado maléfico ou aterrorizante da criatura, mas sim um lado mais introspectivo, de autorreflexão, de alguém que não possui nenhuma conexão verdadeira com o mundo real e assiste passivamente a vida dos humanos, que conversam entre si sem perceber a presença do fantasma. O lado triste e melancólico de uma figura que por muito tempo foi caracterizada como onipotente e poderosa lembra muito filmes como Amantes Eternos (2013) e até mesmo o próprio Nosferatu (1922), de F.W. Murnau, que ressaltam o peso da vida eterna carregado pelos vampiros, criaturas que apesar possuirem muitos poderes, levam uma vida triste por assistirem a morte de todos seus entes queridos enquanto permanecem intactos.

Se você espera um filme tão amedrontador que te faça pular da cadeira, A Ghost Story talvez possa te decepcionar. Com cenas longas e poucos cortes, o filme leva tempo para se desenvolver e em momento algum usa artifícios baratos para ser aquilo que não é. As cenas de suspense são poucas, não há sustos ou sangue e o fantasma não é retratado como um monstro ameaçador; ele é um ser com sentimentos, assim como nós. Isso não é um demérito, é só um aviso para que o leitor não assista ao filme com as expectativas erradas. De certo modo, a ausência dessa atmosfera aterrorizante funciona muito bem para despertar certas emoções que dificilmente são exploradas em filmes de terror, como a empatia por uma criatura de outro mundo.

Mesmo com os poucos diálogos, a direção de David Lowery (Amor Fora da Lei, Meu Amigo – O Dragão) expressa perfeitamente o sentimento dos personagens, inclusive do próprio fantasma, que apesar de ter seu rosto completamente coberto por um pano, consegue transparecer sentimentos como ódio e angustia sem precisar de falas ou expressões faciais, apenas dos movimentos de câmera precisos que através de um zoom-in ou zoom-out deixam claro a mensagem a ser transmitida. Inserir o fantasma em campos abertos ou ambientes completamente iluminados é outra técnica da direção para dar mais profundidade ao personagem, tarefa que seria impossível sem a ótima direção de arte, também responsável por proporcionar cenas visualmente fantásticas.

Em muitos momentos, a câmera funciona como um personagem na história. Ela está sempre nos cantos de algum cômodo ou atrás de uma porta observando os acontecimentos, como uma visita indesejada que não quer que sua presença seja notada. Tanto os aspectos técnicos quanto narrativos são trabalhados minuciosamente para surpreender o espectador ao final do filme, momento em que certas motivações são evidenciadas e as explicações para cada detalhe apresentado ao longo da projeção vêm à tona – um verdadeiro mindblowing.

Os minutos finais do filme podem ser considerados um pouco autoexplicativos, o que mostra certa insegurança do roteiro em finalizar a história em seu ápice por medo de desagradar uma parcela do público. Pequenas falhas (ou medo de arriscar) no roteiro não tiram a grandiosidade da obra que é A Ghost Story, um filme inventivo que confere uma nova camada à lenda dos fantasmas.

A Ghost Story é um filme que nos faz pensar sobre mortalidade e existência. Qual será nosso legado após a morte? Qual a história que contarão sobre vocês depois depois de sua morte? Essas questões permeiam o filme e dão seu tom de melancólico personificado na figura de um fantasma angustiado e solitário. O filme se assemelha a outros exemplares contemporâneos do terror psicológico como Boa Noite, Mamãe (2013) e O Babadook (2014) por utilizar criaturas que figuram no imaginário popular para traçar paralelos com as emoções humanas.

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  1. Acabei de assistir o fiome e ainda estou refletindo. Fiquei curiosa sobre o final, não consegui captar a motivação do fantasma e o pidei ter no papel.

    1. Oi Carol. Então, acredito que a motivação do fantasma seja o ponto principal do filme. Depois que tudo e todos que ele conhecem simplesmente vão embora, ele fica vagando pelo mundo tentando encontrar um motivo para sua própria existência. As coisas que ele faz ao final do filme justificam bem essa hipótese, mas não vou me aprofundar muito nisso a fim de evitar qualquer tipo de spoiler. 😉

  2. ola o/

    Gostei muito da abordagem que foi feito com a figura do fantasma, nos mostrando uma outra face, que nos segue até mesmo depois da morte: solidão, saudade e tristeza. Como você disse, o filme não precisou de grandes artifícios para demonstrar os sentimentos do melancólico fantasma. Um outro ponto importante, e que chamou bastante minha atenção, é o enquadramento em 4:3. Enfim, o filme é sensacional, vale muito o tempo.

    1. Oi João!

      Eu também adorei a forma como o fantasma foi retratado. Pegar uma figura que amedronta tanta gente e mostrar seu lado sensível e solitário funcionou muito bem. Eu já havia visto abordagens semelhantes nos filmes de vampiros como citei no artigo, mas com o fantasma foi a primeira vez, por isso o filme me surpreendeu tanto. A Ghost Story entra fácil no meu top 5 de melhores filmes de 2017.

  3. Adorei o filme! Muito bem feito apesar da simplicidade , e isso é o que mais encanta! Tocante, maravilhoso e esse trio, Lowery/Affleck/Mara, já conquistaram meu coração e admiração! Tecnicamente Affleck e Mara são muito parecidos nas nuances minimalistas e internalização das emoções! Adoro o estilo de ambos! Recomendo e já está na minha lista de melhores filmes !

  4. Vi esse filme hoje e achei incrível, e o final dele é bem do jeito que eu gosto.
    Um dos melhores, se não o melhor filme que vi esse ano.

    1. Alisson, eu gravei um vídeo hoje explicando o filme. Acho que até o final da semana consigo subi-lo no youtube. Mas de uma forma simplificada:

      SPOILERS SPOILERS SPOILERS SPOILERS SPOILERS SPOILERS ——— O filme é basicamente sobre um fantasma lidando com o peso da própria existência. O filme é ambientando em várias linhas temporais onde o protagonista transita: no passado, antes de a casa ser construída; no presente, quando ele vê sua vida junto à sua mulher na casa que os dois moravam; e no futuro, quando ele se suicida pulando do topo de um prédio. É nessa hora (futuro) que ele reconhece que sua “vida” já não vale mais nada e salta do prédio, mas o suicídio não funciona, pelo contrário, faz ele voltar para o passado. Ai ele vive tudo de novo até o momento em que ele chega na casa, passa um tempo lá e se depara com outro fantasma (que é ele mesmo). A diferença entre esses dois fantasmas, de acordo com o diretor, é que um percebe o que seria necessário para sair daquele looping temporal e o outro não. A única forma de ele conseguir deixar esse mundo seria encontrando aquele bilhete que a personagem da Rooney Mara deixou escondido na casa, por isso ele passa tanto tempo arranhando a parede. Aí a partir do momento em que consegue ler o que está escrito no bilhete, ele simplesmente se desfaz e o filme acaba. Então sim, ele estava preso no tempo porque tinha alguma coisa prendendo ele ali e ele não conseguiria partir até dar esse assunto por encerrado. O outro fantasma que ele vê da janela da casa estava na mesma situação, tanto que quando ele pergunta “O que você está fazendo?” o outro responde “Esperando por alguém”. Outro ponto importante para sacar o enigma do filme são os ângulos de câmera. Como eu disse na crítica, a cãmera está sempre eu um canto escuro do ambiente ou atrás das portas, como se fosse um personagem. E na verdade ela é, se você olhar bem, vai ver que no início do filme a câmera estática nada mais é que a visão subjetiva do fantasma (um fantasma preso em um looping temporal observando os acontecimentos do casal).

      1. ainda bem que li essa resenha porque nao tinha entendido o final bem… o filme me deixou angustiada rs.. me causou uma impaciencia.. com relação a mim mesma

      2. SPOILER

        Vinicius, muito obrigado. Eu não tinha me tocado que ele tinha voltado no tempo(por mais óbvio que parecia, achei que fosse um futuro pós-apocalíptico) por isso eu não entendi ele ver novamente a vida do casal… Pensei que fossem reencarnações deles que acabariam fazendo as mesmas coisas. Obrigado. Agora, lembra que eles escutavam ruídos na casa e achavam ser ratos ? Agora que sei que ele voltou no tempo, e que foi ele como fantasma que fazia tais barulhos(como aquele do piano) quer dizer que desde o início do filme já tinha outro fantasma lá ? Outro dele ? Quantas vezes ele já repetiu esse processo de morrer e voltar no tempo ?

        Novamente muito obrigado pela explicação, ansioso pelo vídeo.

    1. Assim como o fantasma do protagonista, ele também precisa de uma forma de “libertação” desse mundo. No caso dele não é o bilhete, mas sim aquela pessoa que ele diz estar esperando, que por sinal já passou tanto tempo que ele até esqueceu quem era.

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